Vitória de Flávio gera 3,5 vezes mais menções nas redes, enquanto conversa sobre Lula tem 71% de negatividade

Vitória de Flávio gera 3,5 vezes mais menções nas redes, enquanto conversa sobre Lula tem 71% de negatividade

5 de outubro de 2026 0 Por Redação Em Notícia
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Levantamento de social listening identificou 184 mil publicações associadas ao primeiro lugar de Flávio Bolsonaro e 52 mil sobre o segundo lugar de Lula; “sensação de derrota” apareceu mais de 11 mil vezes

A reação ao primeiro turno das eleições presidenciais produziu comportamentos distintos nas redes sociais. Levantamento realizado pela professora da FGV e especialista em comportamento do consumidor e social listening Lilian Carvalho identificou 184 mil menções associando Flávio Bolsonaro (PL) à vitória e ao primeiro lugar, contra 52 mil relacionadas ao segundo lugar e à derrota de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A diferença significa que a primeira conversa alcançou volume 3,5 vezes maior.

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O monitoramento foi realizado por meio da plataforma Brandwatch Consumer Research entre o domingo da eleição e a manhã desta segunda-feira (5). A análise separou as publicações que relacionavam Flávio à vitória e ao primeiro lugar daquelas que associavam Lula ao segundo lugar ou à derrota, buscando identificar diferenças de volume, sentimento, autores e assuntos presentes nas duas conversas.

O resultado eleitoral colocou Flávio e Lula no segundo turno, marcado para 25 de outubro. Com 99,99% das urnas apuradas, Flávio recebeu 56,1 milhões de votos, ou 47,03% dos válidos, enquanto Lula somou 53,9 milhões, equivalentes a 45,16%.

A diferença em relação às pesquisas divulgadas na reta final ajuda a contextualizar a reação observada nas redes. Na pesquisa Datafolha divulgada em 3 de outubro, Lula aparecia com 45% dos votos válidos e Flávio com 42%, situação considerada de empate técnico pela margem de erro de dois pontos percentuais. Dois dias antes, o levantamento mostrava 45% a 40%. Pesquisas eleitorais medem a intenção de voto no período em que são realizadas e não constituem previsão do resultado.

Além do volume total, o levantamento encontrou diferenças no comportamento de quem participou das duas conversas. As 184 mil menções sobre a vitória de Flávio foram produzidas por aproximadamente 90 mil autores únicos, média de cerca de duas publicações por autor. No caso de Lula, foram 52 mil menções feitas por 40 mil autores, ou aproximadamente 1,3 publicação por pessoa.

Para Lilian Carvalho, a diferença sugere maior repetição e circulação de conteúdo na conversa relacionada ao primeiro colocado. “Não estamos medindo intenção de voto nem dizendo que uma publicação representa necessariamente um apoiador. O que os dados permitem observar é que a conversa associada à vitória de Flávio teve não apenas mais participantes, mas também maior frequência de publicação por autor. Houve mais repetição e amplificação desse conteúdo nas redes”, explica.

A concentração também aparece entre os conteúdos mais compartilhados. Segundo o levantamento, alguns perfis funcionaram como grandes distribuidores das publicações que ganharam alcance durante a apuração. Entre eles estão contas originalmente dedicadas à cultura pop, entretenimento, celebridades e reality shows.

“Sensação de derrota” aparece mais de 11 mil vezes

A diferença mais acentuada foi encontrada na análise de sentimento das publicações classificadas pelo monitoramento. Na conversa relacionada a Flávio Bolsonaro, 28% das menções foram classificadas como positivas, 12% como negativas e 60% como neutras. Entre as menções relacionadas ao segundo lugar ou à derrota de Lula, 71% foram classificadas como negativas, 21% como neutras e 8% como positivas.

Nesse segundo grupo, “sensação de derrota” apareceu em mais de 11 mil ocorrências, segundo o estudo, superando outras expressões relacionadas ao resultado. Termos como “derrota de Lula” e “Lula perdeu” também figuraram entre os mais recorrentes. O dado chama atenção porque a disputa presidencial não terminou no primeiro turno. Lula avançou para a segunda etapa da eleição com uma diferença de aproximadamente 2,2 milhões de votos em relação a Flávio.

“Existe uma diferença importante entre o resultado eleitoral e a maneira como ele foi processado na conversa digital que monitoramos. Lula continua na disputa, mas encontramos um vocabulário fortemente associado à perda entre as publicações analisadas. Social listening é particularmente útil para identificar esse tipo de reação porque mostra não apenas sobre o que as pessoas estão falando, mas como determinados acontecimentos são enquadrados e repercutidos”, afirma Lilian.

Outro achado do levantamento é a participação de páginas que normalmente não têm a política como tema principal. Perfis ligados a cultura pop, música, celebridades e reality shows apareceram entre os conteúdos mais compartilhados nas duas conversas monitoradas. Contas como Poptime, QG do Pop, Stage Pop, Update Charts, Central Reality e Portal Babados estão entre os perfis identificados pelo estudo.

Na avaliação da pesquisadora, o fenômeno mostra como a circulação de informações eleitorais extrapola os ambientes tradicionalmente políticos. “O usuário não precisa seguir um veículo político ou um candidato para receber informação eleitoral. O resultado da eleição aparece no mesmo feed em que ele acompanha música, televisão, celebridades ou entretenimento. Isso ajuda a entender como a política passou a disputar atenção dentro de comunidades digitais que originalmente foram formadas em torno de outros interesses”, explica.

O monitoramento também identificou a presença do Grok, assistente de inteligência artificial integrado ao X, entre os autores mais ativos da conversa analisada sobre Lula. Segundo Lilian, usuários acionaram a ferramenta em discussões envolvendo números e resultados eleitorais, adicionando um novo elemento à circulação de informações políticas nas plataformas.

Senado e STF aparecem na conversa relacionada a Lula

Os assuntos associados aos dois candidatos também apresentaram diferenças. Na conversa relacionada à vitória de Flávio, prevaleceram expressões diretamente ligadas ao resultado eleitoral e ao primeiro turno.  Já entre as menções relacionadas a Lula, termos como STF, Senado e Congresso ganharam presença, indicando que parte da discussão analisada extrapolou o resultado presidencial e incorporou a composição institucional saída das urnas.

O PL elegeu 19 senadores e deverá iniciar 2027 com uma bancada projetada de 28 integrantes, ante os 15 da composição anterior à eleição.  Para Lilian, o levantamento não permite projetar o comportamento eleitoral das próximas três semanas, mas oferece uma fotografia da reação digital imediatamente posterior ao primeiro turno.

“As redes não representam todo o eleitorado e volume de menções não deve ser confundido com voto. O que conseguimos observar é o estado da conversa naquele momento: de um lado, um volume muito maior de publicações associadas à vitória; do outro, uma conversa menor e marcada por forte negatividade. O segundo turno começa com esses dois ambientes digitais, mas eles podem mudar rapidamente ao longo da campanha”, afirma.

Sobre o levantamento

O estudo foi realizado por Lilian Carvalho por meio do Brandwatch Consumer Research e acompanhou duas conversas digitais entre o domingo do primeiro turno e a manhã de segunda-feira (5): publicações que associavam Flávio Bolsonaro à vitória e ao primeiro lugar e publicações que relacionavam Lula ao segundo lugar e à derrota. Foram analisados volume de menções, autores únicos, sentimento, termos recorrentes e conteúdos compartilhados.

Lilian Carvalho é professora da FGV, especialista em comportamento do consumidor e social listening e sócia-fundadora da DigiSales Group.

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