Eleições 2026: O que aconteceu?
5 de outubro de 2026Ao procurar compreender as transformações do mundo após a Primeira Guerra Mundial, Antonio Gramsci desenvolveu o conceito de hegemonia como instrumento para explicar a maneira pela qual uma determinada visão de mundo ultrapassa o campo das ideias e se transforma em projeto político, cultural e institucional. A hegemonia não se estabelece apenas pela conquista do poder, mas pela capacidade de construir consensos, ocupar espaços e fazer com que determinado projeto passe a organizar parte significativa da sociedade.
É possível utilizar essa chave de interpretação para compreender a trajetória recente da política brasileira. O lulismo construiu, a partir de 2002, um projeto hegemônico que ultrapassou as fronteiras eleitorais. A eleição de Lula, sua reeleição e, posteriormente, a eleição de Dilma Rousseff foram acompanhadas pela implementação de políticas sociais e pela ampliação de uma rede de apoio que alcançou universidades, setores da advocacia, imprensa, professores, intelectuais e diferentes segmentos organizados da sociedade.
A construção, contudo, começou a apresentar sinais de esgotamento a partir das manifestações de junho de 2013. Desde então, as vitórias eleitorais do PT ocorreram em disputas cada vez mais estreitas, acompanhadas pela perda progressiva de apoio político no Congresso Nacional e pela dificuldade de reconstruir o mesmo campo de sustentação que havia caracterizado os primeiros anos do lulismo.
A crise da hegemonia petista abriu espaço para uma nova disputa pela organização da sociedade. É nesse espaço que emerge o bolsonarismo. A partir de 2018, o movimento passou a reunir elementos como individualismo, empreendedorismo, conservadorismo nos costumes e forte discurso relacionado à segurança pública. Mais do que reproduzir a estrutura anterior, entretanto, desenvolveu-se uma característica própria: a distribuição territorial e institucional de sua força política.
Governadores, senadores e deputados passaram a construir carreiras eleitorais associadas ao bolsonarismo, mas sem necessariamente permanecer subordinados de maneira integral ao seu principal líder. Essa autonomia relativa permitiu que diferentes lideranças incorporassem elementos desse campo político às especificidades de seus estados e regiões. O resultado é uma espécie de federalização do bolsonarismo, na qual uma identidade nacional passa a adquirir diferentes características conforme o espaço político em que se desenvolve.
Essa dimensão ajuda a compreender por que a disputa de hegemonia não pode ser reduzida à figura individual de Jair Bolsonaro. A força de um projeto político depende justamente de sua capacidade de sobreviver às circunstâncias particulares de sua liderança. A derrota eleitoral de 2022 e a formação de uma frente ampla em torno de Lula representaram uma tentativa de recomposição do campo político, reunindo setores que não pertenciam originalmente à esquerda. Essa composição, porém, não eliminou as transformações sociais e eleitorais produzidas desde 2018.
É justamente nessa transformação que se encontra o principal fenômeno político do Brasil contemporâneo. A hegemonia não é permanente. Ela precisa ser constantemente reconstruída, atualizada e legitimada diante de uma sociedade em mudança. Por isso, as eleições de 2026 devem ser observadas não apenas como uma disputa entre candidatos, mas como mais um capítulo de uma transformação hegemônica que permanece em curso. O resultado presidencial será relevante, mas não encerrará esse processo. O que está em curso no Brasil, portanto, não é apenas a alternância de governos, mas a transformação das bases sobre as quais o poder político é construído. E essa transformação ainda terá novos capítulos depois de 2026.
Victor Missiato, professor de História do Mackenzie Tamboré. Dr. em História e analista político





