Congresso derruba veto de Lula a projeto que reduz penas de condenados pelo 8 de Janeiro
30 de abril de 2026Decisão legislativa altera cálculos de dosimetria e pode antecipar progressão de regime de envolvidos em atos antidemocráticos; analistas apontam fragilidade institucional e tensionamento com o Judiciário
O Congresso Nacional rejeitou, nesta semana, o veto presidencial ao projeto de lei que estabelece novos critérios de dosimetria para crimes contra o Estado Democrático de Direito. A medida impacta diretamente as sentenças dos condenados pelos atos de 8 de janeiro de 2023, permitindo a redução de penas e a antecipação da progressão para o regime semiaberto.
A votação ocorreu sob ampla margem: na Câmara dos Deputados, registraram-se 318 votos pela derrubada do veto contra 144 pela manutenção; no Senado, o placar foi de 49 a 24. O resultado consolida uma semana de reveses para o Palácio do Planalto no Legislativo, ocorrendo menos de 24 horas após a rejeição da indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF).
Impactos Jurídicos e Políticos
O texto, apelidado nos bastidores como “PL da Dosimetria”, surge como uma alternativa à proposta de anistia ampla, que enfrenta maiores resistências políticas. Especialistas indicam que a nova norma deve beneficiar diretamente figuras centrais da trama golpista, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro, cujos cálculos de pena podem ser revistos, permitindo a transição de regime anos antes do previsto originalmente.
Para o jurista Lenio Streck, a decisão parlamentar apresenta vícios de constitucionalidade. “Não existe a possibilidade de o Parlamento diminuir penas já aplicadas pelo Judiciário nos moldes em que isso foi feito”, afirma Streck, sugerindo que a medida aprofunda as tensões com o STF, que pode ser provocado a se manifestar sobre a legalidade da norma.
Perspectiva Histórica e Institucional
Historiadores e cientistas políticos avaliam o movimento como um reflexo da tradição política brasileira de leniência com rupturas institucionais. O professor Carlos Fico, da UFRJ, destaca que o uso do perdão legislativo ou da redução de danos a golpistas é uma constante que sinaliza “fragilidade institucional”.
Na visão do cientista político Jorge Chaloub, a derrubada do veto evidencia que uma parcela expressiva do Congresso Nacional integra, na prática, a coalizão da ultradireita, mantendo a “carta da tentativa de golpe” como um elemento de pressão política constante.
Desafios no Horizonte Legislativo
A manutenção do risco democrático também é atribuída à interpretação ambígua do Artigo 142 da Constituição Federal. Embora existam Propostas de Emenda à Constituição (PECs) para redefinir o papel das Forças Armadas e extinguir a tese do “poder moderador”, o clima de ano eleitoral em 2026 tende a paralisar essas articulações, adiando reformas consideradas estruturais por especialistas.
O cenário aponta para um STF sob pressão contínua. A Corte enfrenta frentes de desgaste que vão desde pedidos de impeachment de ministros até críticas sobre a condução de inquéritos e comissões parlamentares de inquérito, o que pode dificultar uma resposta institucional célere aos questionamentos judiciais que devem surgir contra a nova lei de dosimetria.






