PF investiga transação de R$ 14,2 Milhões entre empresa ligada a Ricardo Magro e firma de Ciro Nogueira
21 de maio de 2026Negócio imobiliário em Teresina consta em documentos da Operação Sem Refino; investigadores apuram possível relação entre os repasses e emendas legislativas de interesse do grupo Refit
A Polícia Federal (PF) instaurou uma linha de apuração para analisar a regularidade de um contrato de R$ 14,2 milhões firmado entre a Athena Real Estate — empresa vinculada ao empresário Ricardo Magro — e a Ciro Nogueira Agropecuária e Imóveis Ltda., de propriedade da família do senador Ciro Nogueira (PP-PI). O negócio, revelado por reportagem da revista Piauí, foi identificado no acervo documental da Operação Sem Refino, que investiga crimes financeiros atribuídos ao grupo Refit (antiga Refinaria de Manguinhos).
Estrutura do Contrato e Fluxo Financeiro
O instrumento contratual foi assinado em agosto de 2024, tendo como objeto a aquisição de uma área de 40 hectares localizada às margens da rodovia BR-316, na zona sul de Teresina (PI). Pela empresa da família do parlamentar, o documento foi subscrito por seu irmão e presidente da companhia, Raimundo Nogueira Lima. Pela compradora Athena, assinou Pedro Zuaid Dias Soares, apontado pelas autoridades como operador do arcabouço financeiro de Ricardo Magro.
De acordo com as investigações e dados contábeis analisados, o fluxo de pagamentos transcorreu da seguinte forma:
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Início: Novembro de 2024, com três aportes iniciais sucessivos de R$ 2,5 milhões.
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Parcelamento: Repasses subsequentes fixados em parcelas mensais de R$ 300 mil.
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Status Atual: O último registro financeiro data de dezembro de 2025, totalizando R$ 10,8 milhões pagos e restando um saldo devedor de R$ 3,4 milhões.
Contexto Legislativo sob Suspeita
O foco da Polícia Federal e do Ministério Público Federal (MPF) concentra-se em determinar se a transação imobiliária reflete valor de mercado ou se consistiu em mecanismo de ocultação de vantagem indevida.
Os investigadores cruzam a cronologia dos repasses com a atividade legislativa do senador. Meses antes da assinatura do contrato, Ciro Nogueira propôs emendas parlamentares ao projeto de lei de combate ao devedor contumaz. As propostas, que nos bastidores receberam a alcunha de “emendas-Refit”, previam critérios que flexibilizavam o enquadramento de companhias do setor de combustíveis na referida categoria. As emendas, contudo, foram rejeitadas pelo Congresso Nacional.
Conexões Societárias e Engenharia Financeira
Ricardo Magro é apontado pela PF como o líder de uma organização voltada à lavagem de dinheiro e fraudes fiscais de grande escala por meio da Refit, cujo passivo tributário com os cofres públicos é estimado em R$ 52 bilhões. Com prisão decretada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), Magro encontra-se foragido e com o nome inserido na Difusão Vermelha da Interpol.
A Athena Real Estate, ligada ao fundo EUV Gladiator, possui conexões com a Eurovest S.A. e outras pessoas jurídicas sob suspeita de movimentar bilhões de reais em operações atípicas. De acordo com o relatório policial, essas estruturas eram utilizadas para escoar o faturamento da refinaria, adquirir patrimônio imobiliário e reinserir o capital no sistema financeiro sob aparência de legalidade.
Contraponto e Situação Processual
Em manifestação oficial, o senador Ciro Nogueira negou qualquer conduta ilícita, asseverando que a negociação imobiliária foi “regular e totalmente declarada” às autoridades competentes. O parlamentar argumentou que o terreno visava à instalação de uma base de distribuição de combustíveis e que sua participação no capital social da agropecuária era inferior a 1% à época das tratativas, não exercendo gerência direta sobre o negócio. Adicionalmente, declarou não integrar mais o quadro de sócios.
Contudo, documentos obtidos pela auditoria mostram que o senador mantinha o usufruto sobre cotas da empresa, com previsão de auferir receitas futuras via distribuição de lucros. Questionado sobre este arranjo societário, o parlamentar informou desconhecer a especificação dos dados e que procederia à verificação interna das informações.
Por envolver autoridade pública detentora de foro por prerrogativa de função, os autos da Operação Sem Refino tramitam sob a relatoria do ministro Alexandre de Moraes, no Supremo Tribunal Federal. O inquérito prossegue apurando as capitulações de gestão fraudulenta, evasão de divisas, lavagem de dinheiro e crimes contra a ordem econômica.






