Operação do MP-SP e Polícia Civil prende advogada Deolane Bezerra por suspeita de lavagem de dinheiro do PCC
21 de maio de 2026Ação mira braço financeiro da cúpula de facção criminosa e resulta no bloqueio judicial de R$ 384,5 milhões em ativos; investigação aponta recebimento de depósitos fracionados sem justificativa de prestação de serviços
Uma operação conjunta entre o Ministério Público de São Paulo (MP-SP) e a Polícia Civil, denominada Operação Vérnix, resultou na prisão preventiva da advogada e influenciadora digital Deolane Bezerra na manhã desta quinta-feira (21). A ação penal visa desarticular um esquema de lavagem de dinheiro estruturado por meio de empresas de fachada e logística para ocultar ativos pertencentes à cúpula da organização criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC).
Medidas Assecuratórias e Alvos da Operação
Por determinação do Poder Judiciário, foram expedidos mandados de busca, apreensão e prisão contra integrantes do alto escalão da facção e pessoas vinculadas ao núcleo financeiro. No plano patrimonial, as ordens judiciais determinaram:
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Bloqueio de Ativos Financeiros: Retenção de R$ 27 milhões em contas da influenciadora Deolane Bezerra e mais R$ 357,5 milhões vinculados aos demais investigados.
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Restrição de Bens Móveis: Bloqueio de 39 veículos automotores, cuja avaliação conjunta supera R$ 8 milhões.
Entre os alvos da operação constam Marco Herbas Camacho, o “Marcola” — apontado como chefe da organização, cuja nova ordem de prisão preventiva foi formalizada no sistema penitenciário —, seu irmão Alejandro Camacho, e seus sobrinhos Paloma Sanches Herbas Camacho e Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho. Everton de Souza, conhecido como “Player” e identificado como operador financeiro do grupo, também é alvo das medidas.
A influenciadora digital, que cumpria agenda em Roma, na Itália, teve seu nome inserido na Difusão Vermelha da Interpol antes de retornar ao Brasil na última quarta-feira, quando foram cumpridos os mandados em sua residência em Barueri (SP). O influenciador Giliard Vidal dos Santos, filho de criação de Deolane, e um profissional de contabilidade também figuram no rol de investigados.
A Engenharia Financeira e a Técnica de Smurfing
O inquérito policial aponta que o esquema utilizava a estrutura da Lopes Lemos Transportes (também denominada Lado a Lado Transportes), sediada em Presidente Venceslau (SP), para internalizar o capital ilícito no sistema financeiro formal.
Após a apreensão do telefone celular de Ciro Cesar Lemos, apontado como o administrador da transportadora e executor das ordens da cúpula do PCC, a perícia técnica localizou comprovantes de depósitos bancários direcionados a Deolane Bezerra e a Everton de Souza. Ciro Lemos e sua cônjuge encontram-se foragidos.
De acordo com o relatório de inteligência financeira, Deolane Bezerra recebeu, entre os anos de 2018 e 2021, o montante de R$ 1.067.505 por meio de depósitos fracionados em dinheiro em espécie, todos com valores individuais inferiores a R$ 10 mil. Tecnicamente, a prática é denominada smurfing, uma tipologia de lavagem de dinheiro desenhada para burlar os gatilhos de comunicação automática dos órgãos de controle, como o Coaf.
Incompatibilidade Patrimonial e Ausência de Lastro
A Polícia Civil e o MP-SP sustentam que a projeção digital e as atividades empresariais e jurídicas formais da investigada operavam como “camadas de aparente legalidade” para dissimular a origem dos recursos. A análise técnica das contas bancárias de Deolane revelou duas principais inconsistências:
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Incompatibilidade de Renda: Fluxo financeiro milionário sem correspondência com a receita bruta declarada aos órgãos fiscais.
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Ausência de Contraprestação: Inexistência de registros documentais ou honorários que comprovassem a efetiva prestação de serviços advocatícios para justificar os repasses.
Ademais, os investigadores identificaram cerca de 50 transferências bancárias, somando R$ 716 mil, destinadas a duas empresas de Deolane. Os valores originaram-se de uma instituição de crédito cujo responsável legal possui renda declarada de aproximadamente um salário mínimo mensal, indicando a utilização de interpostas pessoas (“laranjas”) e ocultação patrimonial.
Histórico da Investigação
A linha de investigação que culminou na Operação Vérnix teve início em 2019, a partir da interceptação de bilhetes e manuscritos na Penitenciária II de Presidente Venceslau. O material ensejou três fases investigativas consecutivas: a primeira mapeou ordens de atentados contra servidores públicos; a segunda detalhou o uso da transportadora pela facção; e a terceira, materializada na Operação Lado a Lado em 2021, consolidou as provas de crimes contra o sistema financeiro que conectaram a estrutura logística às contas da advogada.
Os investigados responderão, de acordo com suas participações, pelos crimes de lavagem de dinheiro, organização criminosa, invasão de dispositivo informático e violação de sigilo funcional. A defesa de Deolane Bezerra e os representantes dos demais citados não emitiram manifestação oficial sobre as prisões e bloqueios até o encerramento desta edição.






