Fim da escala 6×1 pode melhorar qualidade de vida e atrair trabalhadores
4 de novembro de 2026Com mudança promulgada e aplicação gradual, empresas se preparam para reorganizar jornadas; levantamento da Rede Cidadã mostra que 75% dos participantes preferem mais descanso a salário 20% maior
A promulgação da emenda constitucional que estabelece o fim da escala 6×1 abre uma etapa de adaptação para empresas e trabalhadores. A ampliação do descanso pode favorecer a convivência familiar, a qualificação e o interesse por oportunidades de emprego, avalia Fernando Alves, superintendente executivo da Rede Cidadã. Para ele, a reorganização da jornada pode contribuir para a qualidade de vida e ajudar setores que enfrentam dificuldades para contratar, especialmente o varejo.
Promulgada em 16 de outubro, a Emenda Constitucional nº 141 prevê dois dias de repouso semanal remunerado e redução gradual da jornada, sem diminuição salarial. O limite semanal passa de 44 para 42 horas dois meses após a publicação e chega a 40 horas um ano depois dessa primeira etapa. A garantia dos dois dias de descanso também começa após o período inicial de dois meses.
O levantamento “Escala 6×1: o que você pensa sobre essa mudança”, realizado pela Rede Cidadã com 5.705 participantes antes da promulgação, oferece elementos para compreender as expectativas em relação à nova organização do trabalho. Entre os respondentes, 75% preferem mais tempo de descanso a um salário 20% maior e 58,4% disseram que não aceitariam uma vaga em escala 6×1 em um novo emprego.
A consulta reuniu pessoas com 16 anos ou mais a partir da base da Taqe, plataforma digital de recrutamento, seleção e capacitação profissional. Os resultados retratam as opiniões dos participantes, sem pretensão de representar estatisticamente toda a população brasileira.
“Sobretudo no campo do varejo, a jornada seis por um é declaradamente hoje o maior adversário das contratações”, afirma Alves. Segundo ele, a Rede Cidadã recebe demandas de supermercados, mercearias e empresas industriais que relatam dificuldades para preencher vagas nesse regime.
Na avaliação do dirigente, oferecer mais tempo de descanso pode tornar essas oportunidades mais atrativas. Entre os participantes do levantamento, 90,3% são favoráveis ao fim da escala 6×1. O apoio chega a 91,3% entre aqueles que trabalhavam nesse modelo quando responderam à pesquisa.
Mais tempo para a família e para estudar
Ao imaginar um dia adicional de folga por semana, 69,5% dos participantes disseram que usariam esse tempo para descansar, ter lazer ou estar com a família. Outros 47,9% indicaram que estudariam ou fariam cursos. Apenas 2,7% afirmaram que trabalhariam para obter renda extra. A pergunta permitia marcar mais de uma opção.
“Elas querem usar esse dia para descanso, convívio familiar, cuidar mais dos filhos, desfrutar dessa vida familiar”, destaca Alves.
Para o superintendente, o tempo disponível também pode ampliar as possibilidades de qualificação profissional. Ele observa que a oferta de cursos pela internet facilita o acesso ao conhecimento, mas aproveitar essas oportunidades exige espaço na rotina.
O desgaste, segundo Alves, precisa ser analisado considerando também os deslocamentos. Ele cita situações em que o trabalhador gasta duas horas para chegar à empresa e outras duas para voltar. Somadas a oito horas de expediente, são 12 horas do dia comprometidas com o trabalho e os trajetos.
Na sua avaliação, uma rotina com pouco tempo para recuperação, convivência e interesses pessoais prejudica a relação das pessoas com o trabalho.
“A gente vê a importância de resgatar o valor da vida no trabalho para que as pessoas adoeçam menos, voltem a confiar no trabalho como fonte de vida, como fonte de desenvolvimento humano”, afirma.
Atratividade vai além do salário
Os resultados do levantamento indicam que diferentes condições têm peso semelhante na escolha de um emprego. Em uma escala de importância de 1 a 5, o salário recebeu nota média de 4,32, seguido pelos dias de folga por semana, com 4,31, e pela possibilidade de crescimento, com 4,30. A duração da jornada diária teve média de 4,12.
Para Alves, esses aspectos precisam ser considerados pelas empresas na busca por profissionais. Sua avaliação parte também da experiência da Rede Cidadã, que, segundo ele, alcançou a marca de 160 mil jovens e adultos inseridos no mercado de trabalho.
O dirigente entende que rever a organização da jornada pode ajudar a recuperar o interesse de candidatos por setores que encontram resistência às vagas oferecidas. Ao mesmo tempo, considera necessário construir ambientes que favoreçam aprendizado, desenvolvimento e relações saudáveis.
Reorganização das empresas
A implementação da mudança prevê espaço para negociação coletiva. Excepcionalmente, acordos ou convenções poderão estabelecer compensação das folgas, desde que assegurem, na média, dois dias de repouso por semana dentro do mês e pelo menos um dia de descanso a cada semana de trabalho. A emenda também prevê a possibilidade de medidas transitórias para pequenos negócios por meio de lei complementar, condicionadas à manutenção dos níveis de emprego.
Para Alves, recursos tecnológicos, controles financeiros e ferramentas de gestão podem ajudar as empresas a reorganizar suas atividades.
Como exemplo, relata uma conversa com um dirigente de um grupo de franquias que vinha experimentando reduzir o horário de abertura das lojas. A proposta era avaliar períodos de baixo movimento e ajustar o funcionamento, diminuindo o tempo de trabalho das equipes.
“Quantas horas a gente entra numa loja e ela está vazia?”, questiona. Na avaliação de Alves, analisar a demanda e rever horários de atendimento são possibilidades a serem consideradas pelas empresas.
O levantamento também identificou disposição para concentrar o trabalho em menos dias: 66,4% dos participantes aceitariam trabalhar cinco dias, com expedientes diários mais longos e manutenção do salário, em vez de seis. Outros 24,1% rejeitaram essa alternativa e 9,4% não souberam responder. A pergunta avaliou uma situação hipotética de distribuição da jornada, sem significar necessariamente redução da carga horária semanal.
Para o superintendente, a busca por soluções deve considerar tanto a organização das operações quanto o tempo de que os trabalhadores precisam para descansar, conviver com a família e investir no próprio desenvolvimento.
Sobre o levantamento
O levantamento “Escala 6×1: o que você pensa sobre essa mudança” reuniu 5.705 respostas de pessoas com 16 anos ou mais, coletadas a partir da base da Taqe entre o fim de setembro e 8 de outubro de 2026. O questionário abordou a escala de trabalho atual, opiniões sobre o fim da 6×1, escolhas hipotéticas envolvendo salário e descanso, prioridades na busca por emprego e possíveis usos de um dia adicional de folga.
A consulta não tem desenho amostral probabilístico. Os resultados descrevem as opiniões dos participantes e não permitem generalizações estatísticas para toda a população nem demonstram, por si só, os efeitos de uma mudança de escala sobre contratações, produtividade ou saúde. A coleta ocorreu antes da promulgação da emenda e, portanto, não constitui uma avaliação dos efeitos da nova regra.
Sobre a Rede Cidadã
A Rede Cidadã promove inclusão e desenvolvimento por meio do trabalho, em parceria com empresas, governos e sociedade. Atua com Aprendizagem Profissional, Estágio e Projetos Sociais. Segundo informações institucionais, alcançou 160 mil jovens e adultos inseridos no mercado de trabalho e reúne mais de 4 mil empresas parceiras.





