Ventos e Tempestades

Ventos e Tempestades

30 de janeiro de 2022 0 Por Redação Em Notícia

(Uma alegoria poética sobre os tempos em que vivemos e que virão)

Aí vem o vento, o imponderável vento, a trazer de longe as nuvens, essas escuras nuvens, nuvens de tempestade.

Sob o céu, há os que se colocam no alto das montanhas. A eles, é dada a tarefa de avisar os que estão ainda mais embaixo que as nuvens escuras estão chegando.

Os mandatários percebem e, no entanto, negam os ventos, voltando-se ao vale onde estão as multidões. A estas, gritam a plenos pulmões que são contra os ventos.

Porém, na verdade, sopram na direção do vento enquanto gritam, colaborando para que ele fique ainda mais encorpado, para que as nuvens cheguem mais rápido e a tempestade que ela traz caia mais forte.

Os senhores de tudo, ora estes senhores, estão no alto das montanhas, protegidos das inundações que a tempestade ocasionará. Eles têm muitos víveres estocados nas montanhas, dados por aqueles que lhes confiaram a incumbência de avisar sobre os ventos.

São alimentos à saciedade, para o momento da chegada da tempestade e para o dia seguinte a ela. Verão o vale inundado, sem sofrer por isso. No entanto, esquecem que o vale, inundado, não terá mais como produzir.

Ao terceiro dia, seus víveres se tornarão escassos e, logo depois, acabarão. Aí, se lembrarão que souberam prometer proteção àqueles do vale. Aí, se lembrarão que souberam subir as montanhas.

Porém, também se darão conta de que perderam o vale. Que ficaram reféns da própria montanha que escalaram. Que se aliaram aos ventos da tempestade. Julgaram a si próprios grandes e grandiosos quando grande é a montanha e grandioso, o vale que, mesmo afogado, a apoia.

Mesmo assim, só terão noção de sua infâmia e pequenez ao constatar que até os ventos foram embora, os deixando a sós. Sem vale. Sem quem cultivasse as terras. Sem alimentos. Sem futuro. Que restaram nus e ilhados, no alto das montanhas, à espera de seu fim.

Moral da história:

– Os maus, a julgar que sabem e podem tudo, esquecem que, se o mundo acabar, acabará também para eles.

Haroldo Barbosa Filho