Robbie Williams descobre autismo aos 52 anos: por que tantos adultos passam décadas sem diagnóstico?
15 de agosto de 2026Análise clínica sobre o diagnóstico tardio de Robbie Williams e o cenário do neurodesenvolvimento no Brasil
Dr. Matheus Trilico, neurologista referência em TDAH e autismo em adultos, explica o que o caso do cantor revela sobre diagnóstico tardio, camuflagem social e a coexistência entre TEA e TDAH — e alerta para os sinais que merecem investigação
Robbie Williams passou boa parte da vida diante de multidões. Tornou-se um dos artistas britânicos mais conhecidos de sua geração e construiu uma carreira marcada pela capacidade de se comunicar com grandes plateias. Aos 52 anos, revelou ter recebido diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA). Williams já havia falado publicamente sobre TDAH e sobre ansiedade, pensamentos intrusivos e dificuldades relacionadas à interação social.
A revelação ganhou repercussão por se tratar de uma celebridade internacional, mas levanta uma pergunta que ecoa longe dos palcos: como uma pessoa pode viver mais de cinco décadas e somente depois descobrir que é autista?
“Quando alguém recebe um diagnóstico de autismo aos 40 ou 50 anos, isso não significa que se tornou autista naquela idade”, explica o Dr. Matheus Trilico, neurologista referência em TEA e TDAH em adultos. “O TEA é uma condição do neurodesenvolvimento. O que pode acontecer é que determinados sinais tenham passado despercebidos, sido compensados ou recebido outras interpretações ao longo da vida.”
Um detalhe da trajetória de Robbie torna o caso ainda mais interessante. Em 2025, durante participação no podcast “I’m ADHD! No, You’re Not”, Williams contou que havia feito um teste on-line para autismo e que o resultado não havia apontado a condição. Posteriormente, após buscar avaliação especializada, recebeu o diagnóstico. A sequência ajuda a demonstrar uma diferença fundamental entre teste de rastreamento e diagnóstico clínico.
“Um questionário pode servir como rastreamento e indicar que determinadas características merecem ser investigadas”, observa o Dr. Trilico. “Mas um teste isolado, principalmente feito pela internet, não confirma e também não deveria ser utilizado sozinho para excluir um diagnóstico.”
Um problema global — e brasileiro
O fenômeno não é isolado. Uma revisão conduzida pelo King’s College London, publicada em 2025 e considerada a maior do tipo já realizada, revelou que entre 89% e 97% dos adultos autistas com 40 anos ou mais no Reino Unido não têm diagnóstico formal.
No Brasil, o cenário segue o mesmo padrão. O primeiro censo nacional a investigar prevalência de autismo — conduzido pelo IBGE no Censo 2022 e analisado por Santos e colegas em 2026 na revista Autism — identificou um gradiente etário acentuado: prevalência de 2,6% em meninos de 5 a 9 anos, caindo para 1,6% em adolescentes e apenas 0,3% em adultos com 30 anos ou mais. Os autores interpretam essa queda como evidência de subidentificação histórica em coortes mais velhas.
Uma revisão sistemática brasileira, publicada em 2022 por Sukiennik e colegas na revista Frontiers in Neurology, descreve o cenário nacional do diagnóstico de TEA: alta idade média ao diagnóstico, número reduzido de profissionais treinados e poucos instrumentos validados em português, fatores que se somam às desigualdades regionais de acesso à saúde entre as regiões Sul/Sudeste e áreas de maior pobreza do país.
Masking: quando a pessoa aprende a esconder suas dificuldades
Um conceito central para entender o diagnóstico tardio é o masking, ou camuflagem social. Ao longo dos anos, algumas pessoas aprendem a observar como os outros se comportam e desenvolvem estratégias para se adequar às situações: ensaiam conversas, copiam expressões, controlam comportamentos e escondem desconfortos. Por fora, parecem perfeitamente adaptadas. Por dentro, essa adaptação pode exigir enorme esforço.
“Às vezes o adulto chega ao consultório dizendo: ‘Eu consigo fazer tudo, mas tudo me custa muito'”, relata o Dr. Trilico. “Esse custo também precisa ser ouvido. Funcionamento aparente e sofrimento interno não são necessariamente a mesma coisa.”
E Robbie Williams, que sobe em palco diante de milhares? Como poderia ter dificuldade social? Um palco é um ambiente diferente de uma interação social cotidiana: existe repertório, ensaio, iluminação, horário e uma função definida. Uma conversa informal envolve sinais sociais imprevisíveis, mudanças rápidas de assunto, ironia e necessidade constante de adaptação.
“Não podemos avaliar o funcionamento neurológico de alguém apenas pelas conquistas que enxergamos”, afirma o Dr. Trilico. “Uma pessoa pode apresentar desempenho extraordinário em determinada área e dificuldades importantes em outras.”
TDAH e autismo na mesma pessoa
O fato de Williams ter TDAH e TEA não é coincidência. Uma meta-análise publicada em 2021, que analisou 63 estudos, encontrou prevalência atual de TDAH em 38,5% dos indivíduos com autismo, chegando a 40,2% ao longo da vida. Um estudo de 2025 do Children’s Hospital of Philadelphia, com mais de 3,5 milhões de adultos, mostrou que 27% dos adultos autistas sem deficiência intelectual também tinham TDAH — dez vezes a taxa da população geral.
“Essa comorbidade complica o quadro clínico”, observa o Dr. Trilico. “O TDAH traz desregulação atencional e dificuldade executiva. O TEA traz desafios na comunicação social e padrões restritos de comportamento. Quando coexistem, o impacto funcional se multiplica — e não fica confinado ao indivíduo. Cônjuges, filhos e colegas absorvem a sobrecarga.”
O hiperfoco e a regulação da atenção
Williams descreveu o hiperfoco do TDAH com franqueza: “Você consegue se concentrar completamente em algo, 1000%, mas, com absolutamente todo o resto, simplesmente não consegue”. A aparente contradição — dificuldade de atenção e, ao mesmo tempo, concentração intensa — é uma das características mais mal compreendidas do TDAH.
“TDAH não significa falta de atenção”, esclarece o Dr. Trilico. “Muitas vezes estamos falando de dificuldade na regulação da atenção. A pessoa pode sofrer para sustentar o foco em uma tarefa pouco estimulante e, ao mesmo tempo, permanecer extremamente concentrada quando existe interesse, novidade ou recompensa.”
Diagnóstico como ferramenta, não como sentença
O diagnóstico em adultos não deve ser encarado como sentença. “O objetivo não é transformar aquela pessoa em alguém que ela não é”, conclui o Dr. Trilico. “É identificar onde existe sofrimento ou prejuízo e oferecer estratégias para melhorar funcionamento, autonomia e qualidade de vida. As peças se encaixam quando você entende como seu cérebro e mente funcionam.”
Aos 52 anos, Robbie Williams não descobriu uma condição que começou agora. Descobriu uma nova maneira de interpretar aspectos de uma história que começou muito antes — e, ao tornar essa descoberta pública, colocou sob os holofotes uma realidade vivida silenciosamente por milhões de adultos no Brasil e no mundo.
Sobre o Neurologista:
Dr. Matheus Luis Castelan Trilico — CRM 35805/PR | RQE 24818
Médico formado pela Faculdade Estadual de Medicina de Marília (FAMEMA); Neurologista com residência médica pelo Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (HC-UFPR); Mestre em Medicina Interna e Ciências da Saúde pelo HC-UFPR; Pós-graduado em Transtorno do Espectro Autista (TEA).
Instagram: https://www.instagram.com/drtrilico.neuro Blog: https://blog.matheustriliconeurologia.com.br Website: https://matheustriliconeurologia.com.br






