Polícia Civil investiga desvios em contrato de R$ 157 milhões da Prefeitura de SP e suposta relação com filme sobre Bolsonaro

Polícia Civil investiga desvios em contrato de R$ 157 milhões da Prefeitura de SP e suposta relação com filme sobre Bolsonaro

1 de junho de 2026 0 Por Redação Em Notícia
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Operação Wi-Fi cumpre mandados na Secretaria de Inovação e em sedes de entidades; suspeita é de que verbas destinadas à internet pública tenham financiado a produção cinematográfica “Dark Horse”

A Polícia Civil de São Paulo deflagrou, nesta segunda-feira (1º), a Operação Wi-Fi com o objetivo de apurar suspeitas de fraude licitatória, irregularidades na execução contratual e desvio de verbas públicas na Prefeitura de São Paulo. A investigação recai sobre um contrato originalmente firmado em R$ 108 milhões, expandido por termos aditivos para R$ 157,1 milhões, celebrado com o Instituto Conhecer Brasil (ICB).

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O ICB é uma Organização Não Governamental (ONG) gerida por Karina Ferreira da Gama, que também é sócia da produtora Go UP Entertainment Ltd. A empresa é a responsável pela produção de “Dark Horse”, uma cinebiografia sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.

A ação cumpre oito mandados de busca e apreensão expedidos pela 1ª Vara Regional de Garantias (1ª RAJ), tendo como alvos a sede da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia (SMIT), os endereços residenciais da investigada e as sedes das entidades envolvidas.

Origem do Inquérito e Indícios de Direcionamento

Os procedimentos investigativos são conduzidos pela 2ª Delegacia de Crimes Contra a Administração Pública, Combate à Corrupção e Lavagem de Dinheiro (DICCA), vinculada ao Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC). O inquérito policial foi instaurado por requisição do Ministério Público de São Paulo, após representação formulada por Leonardo Carvalho Bastos, conselheiro de ética partidária, originalmente direcionada ao Ministério Público Federal.

O objeto da contratação (Contrato 01/SMIT/2024) consistia na implantação, operação e manutenção de 5 mil pontos de acesso público à internet sem fio em comunidades periféricas da capital, inseridos no programa WiFi Livre SP. Conforme os relatórios da DICCA, há indícios substanciais de direcionamento no chamamento público, uma vez que o ICB figurou como participante exclusivo do certame, a despeito de não possuir histórico técnico no setor de telecomunicações — com atuação pregressa restrita a eventos literários e religiosos. O Tribunal de Contas do Município (TCM) chegou a apontar 20 inconformidades no edital e recomendou a suspensão do processo devido à fragilidade dos critérios de seleção, orientação que não foi adotada pela secretaria.

Discrepância Econômica e Execução Contratual

A fiscalização técnico-financeira revelou discrepâncias significativas entre os valores de mercado e os pactuados com a ONG:

[Comparativo de Custos por Ponto de Wi-Fi (Mensal/R$)]

Modelo Anterior (PRODAM)  ──► Implantação: R$ 230 | Manutenção: R$ 306
Contrato ICB (Denúncia)   ──► Valor Fixo por Ponto: R$ 1.800
Proposta Reajustada 2026  ──► Valor Fixo por Ponto: R$ 1.280,80

Auditorias indicaram que, do escopo inicial de 5 mil pontos, apenas 3,2 mil foram efetivamente declarados como executados. Três termos aditivos sucessivos foram assinados sob a justificativa de estender prazos e readequar o cronograma de desembolso, elevando o montante em R$ 49,1 milhões.

Relatório da Promotoria de Justiça de Defesa do Patrimônio Público e Social indicou que R$ 26 milhões foram repassados de forma antecipada sem a comprovação documental da contraprestação dos serviços. Até dezembro de 2025, o erário municipal já havia liquidado R$ 83 milhões em favor do ICB, com reserva orçamentária de R$ 53 milhões para o exercício corrente — dos quais R$ 12,2 milhões já foram pagos.

Suspeita de Confusão Patrimonial e Financiamento Cruzado

A principal linha de investigação da Polícia Civil busca mapear uma possível triangulação financeira para ocultar o desvio de recursos públicos da Saúde e Tecnologia para a Go UP Entertainment durante o período de desenvolvimento de “Dark Horse”. A autoridade policial requereu ao Poder Judiciário o compartilhamento de relatórios de inteligência financeira emitidos pelo Conselho de Controle das Atividades Financeiras (Coaf) referentes às contas de Karina da Gama, da produtora e da ONG.

Em ofício enviado ao Judiciário, o delegado titular da 2ª DICCA, Antônio Carlos Munuera Silveira, afirmou haver “consistentes suspeitas de confusão patrimonial e de que os recursos públicos do programa ‘WiFi Livre SP’ tenham sido desviados para custear as atividades de produção do referido filme, utilizando as contas das empresas subcontratadas e das demais organizações sociais geridas pela investigada para a lavagem dos valores”.

O projeto cinematográfico teve mais de 90% de seu orçamento providos pelo banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. Mensagens interceptadas pela Polícia Federal indicam que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tratou de um aporte de US$ 24 milhões (equivalente a R$ 134 milhões) com o executivo financeiro para subsidiar a obra, mesmo após a prisão de Vorcaro em novembro de 2025 por fraudes financeiras. Em pronunciamento oficial realizado em maio na sede do PL, o senador afirmou que seus contatos com o banqueiro limitaram-se estritamente à captação de recursos privados para a produção. O roteiro do longa-metragem é assinado pelo deputado federal Mário Frias (PL-SP), que destinou R$ 2 milhões em emendas parlamentares à ONG gerida por Karina em 2024.

Manifestações das Partes

A Prefeitura de São Paulo emitiu nota oficial em que afirma colaborar integralmente com as investigações e ressalta que os documentos solicitados pela Polícia Civil já haviam sido disponibilizados via Sistema Eletrônico de Informações (SEI). A administração municipal enfatizou que o programa opera regularmente e que o aditivo em vigor restringe-se à manutenção dos 3,2 mil pontos ativos, fixando o custo mensal por unidade em R$ 1.280,80 — valor que aponta ser inferior a propostas concorrentes registradas em 2022. O Executivo paulistano repudiou o que classificou como “ilações de desvios”, reiterando que o chamamento público de 2024 obedeceu aos ritos da legalidade e ocorreu antes do início da produção cinematográfica mencionada.

As defesas de Karina Ferreira da Gama, do Instituto Conhecer Brasil e da Go UP Entertainment Ltd. não foram localizadas para emitir manifestação técnica até o fechamento desta reportagem. O espaço permanece aberto para o posicionamento formal das partes.

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