Performance, hiperconexão e cultura da urgência desafiam o mercado de social media
19 de junho de 2026 0 Por Redação Em NotíciaPesquisa mostra que o marketing digital está entre as áreas mais vulneráveis ao burnout, com dois em cada três profissionais relacionando o trabalho atual ao estresse
Trabalhar nas mesmas plataformas usadas para lazer, relacionamento e entretenimento, em uma cultura onde “tudo é para ontem”, tem cobrado um preço alto pela saúde mental dos profissionais de marketing digital. Segundo a pesquisa “Desabafos”, realizada pela Social Media Thinking, dois em cada três entrevistados afirmam que o trabalho atual está diretamente relacionado ao estresse. O levantamento publicado por Ana Carvalho RP também revela um cenário de forte insatisfação: a média de satisfação com a carreira ficou em apenas 2,9, em uma escala de 1 a 5, enquanto cerca de 45% dos profissionais atribuíram notas 1 ou 2 ao mercado.
Os dados revelam um fenômeno descrito pelos especialistas como “estresse de transição”: profissionais de nível pleno são os que mais relatam adoecimento emocional, justamente por acumularem alta responsabilidade técnica sem ainda possuírem a autonomia ou maturidade emocional normalmente desenvolvidas em cargos seniores.
O limite entre o estresse natural e o esgotamento crônico
Do ponto de vista clínico, o estresse em si não é o principal vilão, o problema está quando ele se torna crônico. Eduardo Melo, psicólogo clínico e supervisor de saúde mental da HealthBit, explica que o estresse habitual, disparado por situações específicas do dia a dia, tende a ser temporário. “O alerta surge quando a exaustão permanece mesmo após férias, pausas ou períodos de descanso, caracterizando o avanço para quadros de burnout”, afirma.
Segundo o especialista, os impactos já aparecem de forma recorrente entre profissionais do setor. “A pessoa começa a se perceber mais irritadiça, desmotivada e emocionalmente esgotada. O trabalho invade a vida pessoal. Passamos a observar alterações no sono, alimentação e até falhas de memória em pessoas jovens e saudáveis, sem qualquer outro fator clínico associado além do desgaste excessivo”, alerta Melo.
O psicólogo ressalta ainda que descanso, sono e pausas não devem ser vistos como obstáculos à produtividade. “Existe uma cultura corporativa que romantiza o excesso, mas o sono e o ócio são aliados da performance sustentável, não inimigos dela”, diz.
A cultura do “falso senso de urgência”
Outro dado que chama atenção no levantamento é que 47% dos profissionais relatam dificuldades frequentes no alinhamento de expectativas com lideranças e clientes. É nesse contexto que se fortalece a cultura do “tudo para ontem”, apontada pelos especialistas como um dos principais gatilhos de ansiedade operacional.
Para Rafael Kiso, fundador e CMO da mLabs, o mercado ainda opera sob uma lógica excessivamente baseada em urgência constante, microgerenciamento e pressão contínua por performance. “Existe uma cultura em que velocidade virou sinônimo de competência. O problema é que operar permanentemente em estado de urgência até pode gerar resultado no curto prazo, mas no longo prazo compromete criatividade, tomada de decisão e saúde emocional”, afirma.
Segundo o executivo, parte do problema também está em modelos de liderança excessivamente centralizadores. “O maior papel da liderança não é controlar cada detalhe da operação, mas usar inteligência emocional, praticar empatia e criar confiança para que as pessoas consigam executar o seu melhor sem vigilância constante”, completa.
Recomendações de rotina
Para ajudar empresas, lideranças e profissionais a criarem ambientes mais sustentáveis, os especialistas recomendam mudanças práticas na rotina de trabalho e na cultura organizacional.
Entre as principais recomendações estão:
- Fim da cultura do WhatsApp imediato: o trabalho não deve operar em lógica de “pronto-socorro”. A recomendação é adotar comunicação mais assíncrona, criar horários específicos para responder mensagens e combater o senso de urgência artificial.
- Higiene do sono e limite de telas: a falta de separação entre ambiente de trabalho e lazer dificulta a recuperação mental. Especialistas recomendam reduzir o uso de telas antes de dormir e criar rituais que sinalizem o encerramento do expediente.
- Gestão de processos: profissionais precisam educar clientes e lideranças sobre prazos, fluxos e o tempo necessário para desenvolver entregas de qualidade, evitando acúmulo excessivo de tarefas.
- Exercício físico como regulador emocional: a atividade física melhora sono, alimentação e bem-estar geral, além de funcionar como ferramenta importante de regulação do estresse e descarregamento da tensão mental acumulada ao longo do dia.






