Operação Miragem: PF devassa banco de Edir Macedo por rombo de R$ 670 milhões e maquiagem contábil
23 de junho de 2026Esquema criminoso no Banco Digimais utilizou fundo fantasma para ocultar ativos podres e fraudar o Banco Central; instituição financeira teve asfixia regulatória mascarada antes de fechar convênios com as gestões Tarcísio e Nunes
Uma megaoperação da Polícia Federal (PF) deflagrada nesta terça-feira (23) sacudiu o sistema financeiro nacional e desmoronou a fachada de solidez do Banco Digimais, instituição controlada pelo bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus. Batizada de Operação Miragem, a ofensiva mira um esquema bilionário de fraude contábil, manipulação de demonstrativos financeiros e falsidade ideológica que blindava o banco de uma intervenção iminente do Banco Central (BC).
A Justiça Federal em São Paulo mobilizou mais de 50 agentes federais para cumprir nove mandados de busca e apreensão. O despacho judicial determinou o bloqueio e o sequestro de bens e ativos financeiros no valor de até R$ 670,3 milhões. Edir Macedo, que reside no exterior, é um dos alvos centrais do confisco patrimonial decretado.
A Anatomia da Fraude: O Fundo de Papelão
As investigações da PF, robustecidas por relatórios de inteligência do Banco Central, revelaram que o Digimais operava uma manobra de engenharia financeira fraudulenta para inflar seus ativos e transmitir uma falsa aparência de solvência ao mercado.
O banco utilizou o Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC) EXP1, administrado pela Yards Asset Management, como um “depósito de lixo contábil”. O Digimais subscreveu R$ 659 milhões em cotas desse fundo por meio da cessão de uma carteira de créditos consignados composta por 54.216 Cédulas de Crédito Bancário (CCBs). No entanto, uma auditoria independente realizada pela UHY Bendoraytes descobriu o blefe: 22.184 títulos não possuíam qualquer comprovação de lastro, significando que 41% da carteira cedida era fictícia ou inadimplente.

Infográfico: Danilo Bueno / www.emnoticia.com.br
A fraude servia para camuflar o colapso regulatório do banco. No quarto trimestre de 2025, o Digimais registrou um Índice de Basileia de 7,98%, patamar criticamente abaixo do mínimo de 11% exigido pelo Banco Central para garantir que a instituição não quebre. Para tentar estancar a sangria antes da investida policial, Macedo aportou R$ 250 milhões na instituição e injetou outros R$ 741,3 milhões na compra de cotas de um fundo chamado Hermon, utilizando métodos que a PF aponta replicarem os crimes do extinto Banco Master.
Conexões Políticas e o Mercado de Consignados
O avanço das investigações criminais projeta sombras sobre o Palácio dos Bandeirantes e a Prefeitura de São Paulo. Mesmo operando sob severa crise e colapso técnico, o Digimais obteve o aval da gestão de Tarcísio de Freitas (Republicanos) para explorar o bilionário mercado de empréstimos consignados com desconto em folha da Polícia Militar do Estado de São Paulo.
O credenciamento foi chancelado em agosto de 2025 com vigência até 2030, abrindo um mercado potencial de 80 mil servidores da ativa para o banco. O Republicanos, partido do governador, possui ligações orgânicas com o controle da instituição financeira. Sob o mesmo modus operandi, a gestão de Ricardo Nunes na prefeitura da capital e o Hospital do Servidor Público Municipal haviam firmado convênios similares.

Infográfico: Danilo Bueno / www.emnoticia.com.br
Apesar do forte aparato político para alavancar os negócios do Digimais, fontes do setor financeiro confirmam que o volume de operações despencou no início de 2026 devido aos rumores de insolvência.
Em litígio judicial, a Yards Asset Management acusa o banco de acionar a Justiça apenas para “tumultuar a gestão” e abafar o crime de fraude documental. Até o fechamento desta edição, nem a direção do Banco Digimais nem os representantes da gestora Yards responderam aos questionamentos formais sobre a ação da Polícia Federal.






