Feira livre de passaporte vacinal 

Feira livre de passaporte vacinal 

12 de abril de 2022 0 Por Redação Em Notícia

O Telegram, mais do que o WhatsApp, é uma ferramenta que proporciona uma infinidade de pautas em decorrência da facilidade de circular pelos mais diversos grupos sem a necessidade de ser convidado ou aceito pelos administradores. Foi nesse mundo de possibilidades que os repórteres Judite Cypreste e Tácio Lorran, do site Metrópoles,  descobriram um mercado ilegal de certificados falsos de vacinas contra a covid-19.

Publicada em 14 de março pelo Metrópoles, a reportagem “Certificados falsos de vacina são anunciados no Telegram por R$ 500” identificou diversos  anúncios de documentos falsos para pessoas que não querem se vacinar ou vacinar os seus filhos, mas que precisam comprovar a vacinação no trabalho, na escola ou, até mesmo, para viajar.

No dia em que conversei com Cypreste, em 25 de março, um dos grupos investigados pela repórter ainda estava na ativa e contava com a participação de 5.448 membros antivacinas. Outro grupo monitorado por ela contava com 2.784 participantes. Os anúncios continuavam sendo compartilhados mesmo após a publicação da reportagem. Os valores variam entre R$ 300 e R$ 500.

Um dos vendedores dos certificados com quem Cypreste conversou disse que o esquema é feito a partir das Unidades Básicas de Saúde (UBS). O golpista, que seria servidor público, promete acrescentar as doses no sistema do usuário como se ele tivesse sido imunizado naquela unidade. Para completar a fraude, uma dose de vacina precisa ser descartada.

Antes de descobrir a venda ilegal dos certificados vacinais, os repórteres estavam analisando questões comportamentais das pessoas que se declaram antivacinas e quais argumentos elas utilizam para não se vacinarem e não imunizarem os filhos. “Muitos adultos foram se vacinar mesmo negando a vacina e as crianças não. Isso é muito curioso, como você se vacina, mas não vacina seu filho?”, pontuou Cypreste.

A repórter criou um perfil no Telegram apenas para monitorar o que as pessoas estavam falando sobre as vacinas. Na ferramenta de busca do aplicativo, pesquisou palavras-chave relacionadas ao tema e entrou nos grupos que mais lhe chamaram a atenção.  A princípio, ela não pretendia conversar com os participantes. Em pouco tempo, porém, Cypreste e Lorran perceberam que a pauta não seria exatamente comportamental, mas de denúncia ao verificar a recorrência dos anúncios sobre as vacinas. Sem se identificar, a repórter conversou com alguns dos vendedores e demonstrou interesse pela compra do passaporte com o intuito de entender como estava se dando o esquema. Os vendedores conversaram com ela, fizeram a proposta, mas também não se identificaram.

#PraTodosVerem: Print da tela do Telegram Web mostra uma busca aleatória pela palavra “vacinas”. Dois grupos antivacinas aparecem como sugestão no aplicativo. Em um dos grupos, há uma mensagem em que o usuário desacredita a eficácia da vacina contra a covid-19. 

A apuração durou cerca de três semanas. A publicação da reportagem atrasou alguns dias pois a equipe precisava checar com o jurídico a possibilidade de finalizar a compra do “passaporte vacinal” para confirmar se o esquema funciona ou se era apenas um golpe. Se avançasse com a negociação, segundo seus advogados, o Metrópoles poderia estar cometendo um crime.

“Uma coisa que a gente conseguiu e foi primordial para bater o martelo foi conversar com uma fonte do Ministério da Saúde [que confirmou] ser totalmente plausível que isso esteja acontecendo dessa forma como foi relatada e que tenha uma rede fazendo isso”, contou Judite Cypreste. A confirmação da fonte foi o que garantiu a publicação da reportagem sem a necessidade de finalizar a negociação com os golpistas. “É uma falha na segurança do Ministério da Saúde, não como foi com o [blecaute] do ConecteSus, é a questão da engenharia social, que faz, por exemplo, um médico ou alguém que trabalha na área da saúde com acesso a esse tipo de dado a usá-lo como forma de retaliação por questões ideológicas”, completou.

Para chegar a uma denúncia como essa, Cypreste ressalta que é preciso olhar para quem está na ponta do problema e sofre as consequências de políticas mal aplicadas ou segue o discurso de quem está no poder. “Às vezes, a gente esquece que o jornalismo é feito de pessoas, não só de quem está em cima. Se um número está mostrando algo, devemos pensar o que está por trás dele. A grande dica é pensar nas consequências; e o Telegram é, realmente, um grande banco de pautas”.  

A repórter precisou formalizar uma denúncia como cidadã para que um procedimento fosse aberto pelo Ministério Público Federal. A Polícia Federal não informou se faria alguma investigação.