Déficit habitacional qualitativo expõe desafio central da adaptação climática urbana no Brasil, alerta especialista  

Déficit habitacional qualitativo expõe desafio central da adaptação climática urbana no Brasil, alerta especialista  

6 de maio de 2026 0 Por Redação Em Notícia
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A crise climática nas cidades brasileiras está diretamente ligada ao chamado déficit habitacional qualitativo — caracterizado pela ausência de infraestrutura urbana, regularização fundiária e condições construtivas adequadas em moradias já existentes. Segundo Socorro Leite, “mais de 70% dos domicílios em Pernambuco apresentam algum tipo de inadequação habitacional, resultado histórico da ocupação de áreas disponíveis sem apoio do Estado, frequentemente em encostas ou territórios sujeitos a alagamentos”. O diagnóstico desloca o debate da falta de moradias para a necessidade urgente de qualificar e tornar seguras as cidades que já foram construídas pela própria população.

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Apesar da existência de recursos públicos para prevenção, adaptação climática urbana e urbanização de favelas, a execução segue limitada. Em 2025, o Governo Federal destinou R$11,7 bilhões para obras de drenagem e contenção de encostas, mas programas como o Urbanização de Favelas – Periferia Viva contrataram R$4,7 bilhões em apenas 32 municípios brasileiros. Em Pernambuco, apenas um município acessou financiamento, enquanto nenhum dos 77 elegíveis buscou recursos disponíveis para drenagem urbana. O cenário confirma o alerta feito por Socorro: muitos gestores recorrem a recursos emergenciais após desastres, mas evitam contratar financiamentos preventivos voltados a obras estruturais menos visíveis politicamente.

O problema se reflete diretamente na gestão de riscos climáticos. Estudo do Tribunal de Contas de Pernambuco indica que 75% dos municípios estão pouco preparados para enfrentar desastres, 69% não possuem sistemas de monitoramento e 56% não contam com abrigos adequados. Ao mesmo tempo, cerca de 4,6 milhões de brasileiros vivem em áreas classificadas como de risco alto ou muito alto pelo Serviço Geológico do Brasil. “O estudo Sem Moradia Digna Não Há Justiça Climática, da ONG Habitat para a Humanidade Brasil, demonstra que a exposição a eventos extremos está diretamente associada à precariedade habitacional, reforçando que adaptação climática também é política de direitos humanos, ligada ao direito à cidade segura e à moradia digna”, defende Socorro.

Com a quadra chuvosa entre maio e julho e a possibilidade de chuvas acima da média associadas ao fenômeno La Niña em 2026, especialistas alertam que a prevenção precisa deixar de ser uma agenda emergencial e passar a integrar o planejamento urbano permanente. Episódios recentes no Recife (2022), Litoral Norte de São Paulo (2023) e Porto Alegre (2024) evidenciam que o país ainda reage às tragédias em vez de preveni-las — embora estimativas indicam que cada R$ 1 investido em prevenção economize até R$ 7 em reconstrução. Em ano eleitoral, o debate sobre adaptação climática urbana e qualificação dos territórios existentes tende a ganhar centralidade política.

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