O mercado financeiro retoma suas operações após o feriado em um momento decisivo, caracterizado por um forte otimismo doméstico em contraste com as volatilidades do cenário internacional. Enquanto o ambiente externo permanece em alerta com as crescentes tensões geopolíticas, a escalada do petróleo Brent acima de US$ 106 e o início da temporada de balanços em Wall Street, os ativos brasileiros passam por uma expressiva reprecificação: o Ibovespa alcança patamares recordes perto dos 210 mil pontos, o dólar opera abaixo de R$ 5,00 e as taxas dos juros futuros acumulam quedas consecutivas.
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No plano nacional, a atenção dos investidores divide-se entre a divulgação de uma intensa bateria de pesquisas eleitorais para o segundo turno presidencial e desdobramentos importantes de pautas econômicas e fiscais em Brasília, a exemplo das discussões sobre a escala de trabalho e ajustes em despesas públicas. A seguir, o analista Gabriel Mollo, da Daycoval Corretora, detalha os principais vetores, indicadores da agenda semanal e perspectivas para os ativos no curto e médio prazo.
Cenário Internacional
O cenário externo permanece pressionado pelas tensões geopolíticas e pela alta dos preços de energia. O petróleo Brent superou US$ 106 por barril na segunda-feira, após novos ataques atribuídos aos houthis contra a Arábia Saudita e preocupações com a segurança do transporte pelo Estreito de Ormuz. Nesta terça-feira, os contratos recuam diante das perspectivas de ampliação da oferta de diesel russo, embora os riscos de abastecimento continuem elevados.
Nos Estados Unidos, o mercado mantém a expectativa de que o Federal Reserve deixe os juros inalterados em outubro e volte a considerar uma alta em dezembro. A inflação ao consumidor (CPI), prevista para quarta-feira, será determinante para calibrar essas apostas. Também estarão no radar o PPI, as vendas no varejo, a produção industrial e o Livro Bege.
A temporada de balanços do terceiro trimestre começa com os resultados de JPMorgan, Wells Fargo e Citigroup nesta terça-feira, seguidos por Bank of America e Morgan Stanley na quarta-feira. Os números devem ajudar a avaliar a resiliência do setor financeiro diante dos juros elevados.
Em Wall Street, os índices tiveram desempenho misto na segunda-feira, em uma sessão de menor liquidez devido ao feriado do Dia de Colombo. O Dow Jones avançou 0,38%, enquanto o S&P 500 recuou 0,06% e o Nasdaq caiu 0,44%. As ações de fabricantes de chips foram pressionadas por preocupações com o financiamento e as perspectivas de receita do setor de inteligência artificial.
Cenário Nacional
O mercado doméstico retoma os negócios após o feriado com atenção concentrada no cenário eleitoral. As pesquisas divulgadas na semana passada apontaram vantagem numérica de Flávio Bolsonaro sobre Lula, mas os resultados permanecem sujeitos às margens de erro e às diferenças metodológicas entre os institutos.
Nesta terça-feira, a pesquisa BTG Pactual/Nexus mostra Flávio com 48% das intenções de voto totais, ante 45% de Lula. Nos votos válidos, a proporção é de 52% a 48%, mas os candidatos permanecem tecnicamente empatados, considerando a margem de erro de dois pontos percentuais. O levantamento ouviu 2.002 eleitores entre 10 e 12 de outubro.
Outras pesquisas, incluindo PoderData, Futura e GERP, também estão previstas para hoje. Na quarta-feira, será divulgada nova rodada da Quaest, enquanto Datafolha e AtlasIntel estão previstos para quinta-feira. Os resultados devem influenciar a precificação dos ativos, embora o foco dos investidores possa migrar gradualmente das intenções de voto para a consistência das propostas econômicas e fiscais.
Outro destaque é a PEC que prevê o fim da escala 6×1, pautada para votação em primeiro turno no Senado nesta quarta-feira. O governo tenta acelerar a tramitação antes do segundo turno presidencial, marcado para 25 de outubro. A discussão pode trazer incertezas sobre os custos trabalhistas, a produtividade e os efeitos sobre a inflação e as contas públicas.
No campo fiscal, declarações de integrantes da equipe econômica associada à campanha de Flávio indicam que um ajuste de grande magnitude em apenas um ano seria difícil de executar. O debate sobre a contenção de despesas obrigatórias, supersalários e emendas parlamentares reforça que a credibilidade e a viabilidade política das medidas serão fundamentais para sustentar a melhora recente dos preços dos ativos.
Juros
Os juros futuros encerraram a última sessão antes do feriado em queda pelo sexto pregão consecutivo, refletindo a redução do prêmio de risco e a expectativa de uma possível mudança na condução da política fiscal. A curva chegou a acumular recuo superior a 150 pontos-base em alguns vencimentos intermediários e longos.
Contrato| Fechamento de sexta-feira
DI Jan/27| 13,439%
DI Jan/28| 12,520%
DI Jan/29| 12,220%
DI Jan/31| 12,245%
DI Jan/33| 12,350%
O movimento ocorreu mesmo após o IPCA de setembro registrar alta de 0,82%, acima da expectativa de mercado de aproximadamente 0,76%, levando a inflação acumulada em 12 meses para 4,58%. A reação evidencia o peso das expectativas fiscais na precificação dos juros, mas também amplia a importância dos próximos indicadores de inflação e atividade.
Nesta semana, o mercado acompanhará o Boletim Focus, divulgado nesta terça-feira, além dos dados de serviços na quarta-feira, varejo na quinta-feira e IBC-Br na sexta-feira. Os indicadores ajudarão a avaliar a resiliência da economia brasileira diante da política monetária restritiva.
Embora o mercado passe a considerar um ciclo de cortes mais intenso da Selic em um cenário de melhora fiscal, a inflação acima do teto da meta e a possibilidade de juros americanos elevados continuam sendo fatores limitantes.
Câmbio
O dólar à vista encerrou a sexta-feira em queda de 0,78%, a R$ 4,9851, acumulando desvalorização de 4,44% na semana. A moeda brasileira foi beneficiada pelo ingresso de capital estrangeiro e pela reavaliação do prêmio de risco doméstico após o primeiro turno.
Apesar do movimento favorável ao real, a continuidade da valorização pode encontrar obstáculos. O diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos tende a diminuir caso a Selic entre em um ciclo mais intenso de cortes, enquanto o Fed pode manter uma postura restritiva por mais tempo.
No exterior, o dólar se fortaleceu na segunda-feira, com o índice DXY avançando 0,37%, para 102,589 pontos, em meio à busca por proteção diante das tensões no Oriente Médio.
No curto prazo, o câmbio deverá reagir às novas pesquisas eleitorais, aos sinais sobre a agenda fiscal e à inflação americana. A forte valorização recente do real também aumenta a possibilidade de ajustes de posições e realização de lucros.
Bolsa
O Ibovespa encerrou a sexta-feira aos 209.066,90 pontos, alta de 1,38% no pregão e de 8,82% na semana. Em outubro, o índice acumulava valorização de 12,20%, aproximando-se de 30% no ano. O volume financeiro permaneceu elevado, em R$ 39,4 bilhões.
O rali foi sustentado pelo ingresso de capital estrangeiro e pelas expectativas de melhora fiscal associadas ao cenário eleitoral. Entre os destaques positivos, BTG Pactual avançou 5,20%, Itaú PN subiu 2,27% e Banco do Brasil ganhou 1,57%. Petrobras ON avançou 1,82%, enquanto as ações PN subiram 0,94%.
Entre os destaques corporativos, MRV disparou 21,62% após divulgar números fortes de vendas no terceiro trimestre. Magazine Luiza subiu 19,22% e Lojas Renner avançou 11,56%. Na ponta negativa, Telefônica Brasil recuou 5,25% e TIM caiu 4,18%.
Na volta do feriado, Petrobras deve concentrar a atenção dos investidores, acompanhando a alta recente do petróleo Brent, que superou US$ 106 por barril. A valorização da commodity pode favorecer as ações da companhia, embora também aumente as preocupações com a inflação e os custos dos combustíveis.
Após a forte valorização recente, o mercado entra em uma fase na qual a continuidade do rali dependerá da confirmação das expectativas incorporadas aos preços. Resultados eleitorais, credibilidade fiscal e evolução dos juros serão determinantes para a sustentação do movimento.
Corporativo
• Santander Brasil: anunciou o pagamento de R$ 1,5 bilhão em juros sobre capital próprio, equivalente a R$ 0,401 por unit. Os papéis ficam ex-direitos em 21 de outubro, com pagamento previsto para 9 de novembro.
• CSN: assinou termo vinculante para a venda da siderúrgica Stahlwerk Thüringen, na Alemanha, por 550 milhões de euros. A operação representa um passo na estratégia de alienação de ativos e redução da alavancagem.
• Gerdau: a BlackRock elevou sua participação para 10,025% das ações preferenciais.
• Vale: informou que a destituição do ex-vice-presidente do conselho Marcelo Gasparino esteve relacionada ao vazamento de informações confidenciais, caso que está sob investigação da CVM.
• BRF: aprovou o pagamento de R$ 350 milhões em dividendos intermediários à sua única acionista.
• Hapvida: a Fitch rebaixou o rating nacional de longo prazo de AA+(bra) para A(bra), com perspectiva negativa, citando deterioração operacional, consumo de caixa e perda de beneficiários.
• Raízen Energia: aprovou pedido de listagem na B3, com negociação de ações ordinárias, preferenciais e units no Nível 2 de governança corporativa.
• Copasa: registrou alta de 1,1% no volume de água e de 3,6% no de esgoto no terceiro trimestre, na comparação anual.
• Eztec: apresentou lançamentos de R$ 726,5 milhões no terceiro trimestre, alta anual de 53%, enquanto as vendas líquidas recuaram 0,6%, para R$ 522,7 milhões.
• Motiva: registrou tráfego de 126,1 milhões de veículos em setembro, crescimento de 30,8% na comparação anual, ou 1,2% em bases comparáveis.
• Arandu: realizará oferta pública de aquisição para fechamento de capital e saída do Novo Mercado em 29 de outubro, ao preço de R$ 0,67 por ação, corrigido pela Selic.
Agenda do Dia
Horário| Evento
08h25| Boletim Focus – Brasil
11h00| Vendas de moradias usadas – EUA
14h00| Balança comercial brasileira
15h00| Reunião das equipes jurídicas das campanhas no TSE
Antes da abertura| Resultados de JPMorgan, Wells Fargo e Citigroup
À noite| Inflação ao consumidor e ao produtor da China
Ao longo da semana, os principais destaques serão:
• Quarta-feira (14/10): dados de serviços no Brasil, pesquisa Quaest, votação em primeiro turno da PEC da escala 6×1 e CPI dos Estados Unidos.
• Quinta-feira (15/10): vendas no varejo brasileiro, novas pesquisas eleitorais, PPI e vendas no varejo dos Estados Unidos, além de resultados do Bank of America e Morgan Stanley.
• Sexta-feira (16/10): IBC-Br, produção industrial americana, inflação ao consumidor da zona do euro e participação de Kevin Warsh em evento do FMI.
Conclusão
O mercado brasileiro retorna do feriado sustentado por um forte movimento de reprecificação eleitoral, com o Ibovespa em níveis recordes, o dólar abaixo de R$ 5 e os juros futuros acumulando uma queda expressiva. Entretanto, a magnitude da valorização recente aumenta o risco de realização de lucros e torna os ativos mais sensíveis a eventuais frustrações.
No cenário doméstico, as pesquisas eleitorais continuam sendo um importante catalisador, mas a atenção tende a migrar gradualmente para a credibilidade das propostas fiscais e para a capacidade de implementação de medidas concretas de contenção de despesas. A tramitação da PEC da escala 6×1 também pode gerar volatilidade, especialmente diante das incertezas sobre seus impactos econômicos.
No exterior, o petróleo acima de US$ 100, as tensões geopolíticas e a possibilidade de juros americanos restritivos por mais tempo representam riscos para os mercados emergentes. O CPI dos Estados Unidos será decisivo para ajustar as expectativas em relação à trajetória do Fed.
Nossa visão é de viés construtivo para os ativos brasileiros no médio prazo, condicionado à confirmação de uma agenda fiscal crível, mas com maior cautela no curto prazo. Depois do rali recente, a continuidade da alta dependerá de novos catalisadores e da confirmação das expectativas incorporadas aos preços. Nesse ambiente, a seletividade e a gestão de risco ganham importância, sobretudo em ativos que já acumularam valorização expressiva.