Seletividade alimentar em crianças com autismo desafia famílias e reforça a importância da intervenção precoce
16 de abril de 2026Abordagem multidisciplinar e as intervenções terapêuticas contribuem para que crianças com TEA desenvolvam maior autonomia e reduzam a resistência durante as refeições
A seletividade alimentar está entre as dificuldades mais comuns para crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e podem afetar diretamente a saúde, o desenvolvimento e a qualidade de vida. Para muitas famílias que convivem com crianças com autismo, em uma rotina marcada pela rotina exaustiva e muitas responsabilidades, a hora da refeição deixa de ser um momento de partilha e união e passa a representar um grande desafio.
Embora não esteja presente em todos os casos, a seletividade alimentar é uma das características frequentemente associadas ao TEA e pode ser percebida quando a criança passa a recusar grupos alimentares inteiros. Além disso, ela apresenta resistência para novos sabores, texturas e cheiros, reagindo com engasgos, náuseas e até mesmo com crises durante as refeições. Essa dificuldade exige das famílias mais paciência, energia e adaptação no dia a dia, e, na maioria dos casos, é necessário buscar apoio especializado.
A fonoaudióloga Juliana Menezes, diretora técnica da Affect Centro Clínico e Educacional, clínica especializada no acompanhamento de crianças com TEA, destaca que essa rejeição acontece por que existe uma hipersensibilidade em relação à textura, à temperatura ou ao sabor do alimento. “É importante que os pais saibam que essa seletividade alimentar pode ser trabalhada para que o processo de alimentação se torne mais natural e tranquilo. E quanto mais cedo a criança for estimulada, maiores são as chances dela ampliar seu repertório alimentar e estabelecer uma relação mais positiva com a comida”, explica.
Juliana ressalta que o tratamento para a seletividade alimentar no TEA vai além do aspecto nutricional, exigindo uma abordagem interdisciplinar e a integração de várias áreas como nutrição, fonoaudiologia, terapia ocupacional e psicologia. “Esse trabalho multiprofissional e integrado é fundamental para compreender as barreiras sensoriais e comportamentais de cada criança, garantindo que as intervenções sejam eficazes e promovam uma maior autonomia durante as refeições”, sublinha.
Segundo a fonoaudióloga, entre as intervenções indicadas para a seletividade alimentar está a cozinha terapêutica. “Buscamos preparar nessa atividade refeições mais atrativas e adaptadas às necessidades das crianças, inclusive com apoio de um chef de cozinha em espaços adaptados para que as crianças tenham contato direto com os alimentos, tornando o processo mais leve e funcional”, sublinha.
Outro recurso apontado pela fonoaudióloga é a horta terapêutica, que propõe desenvolver nas crianças uma maior relação com os alimentos desde o cultivo como forma de diminuir a resistência. “A criança se envolve no plantio, no cuidado e na colheita dos alimentos. Essa experiência contribui para aprimorar a compreensão de todas as fases do processo alimentar, do plantio até a hora da refeição. Tudo acontece de uma forma lúdica e divertida, fazendo com que o alimento deixe de ser apenas um item no prato e se transforme numa experiência mais próxima da realidade da criança”, diz.
A fisioterapeuta Rafaela Campos, diretora multiprofissional da Affect, ressalta que a participação dos pais é fundamental para vencer os obstáculos da seletividade alimentar. De acordo com ela, as instruções para lidar com a resistência alimentar devem ser aplicadas no ambiente doméstico e mantidas de maneira constante na rotina diária da família. “Essa continuidade em casa tem um impacto direto no progresso da criança, reforçando a adesão às estratégias terapêuticas para que o processo de alimentação se torne mais natural ao longo do tempo”, salienta.
Rafaela inclui como suporte ao processo terapêutico as oficinas de seletividade alimentar, voltadas à estimulação precoce e ao desenvolvimento de habilidades relacionadas à alimentação. “Desenvolvemos na clínica o projeto “Escolinha SOS Alimentação”, com atividades práticas que estimulam a introdução de novos alimentos. A ideia é envolver as crianças em um ambiente que estimula a vivência, o contato com os alimentos de forma divertida e lúdica, com o intuito de diminuir a resistência e ampliar a autonomia delas durante as refeições”, enfatiza.
A fisioterapeuta acrescenta que serão realizadas as oficinas nos dias 23 e 24 de abril, nos períodos matutino e vespertino, destinadas tanto aos pacientes da clínica quanto às crianças da comunidade externa. Ela lembra que as inscrições se encerram no dia 22 de abril e que mais informações podem ser obtidas pelo telefone (62) 9-9667-8330 (WhatsApp).





