Pepe Mujica morre aos 89 anos: ex-presidente do Uruguai estava com câncer de esôfago
13 de maio de 2025A neoplasia foi descoberta após exames de rotina, em abril de 2024; Em janeiro deste ano, ele optou por não realizar mais nenhum tratamento para a doença
Nesta terça-feira, 13 de maio, José “Pepe” Mujica morreu aos 89 anos. Apesar da causa da morte ainda não ser divulgada, o ex-presidente do Uruguai havia sido diagnosticado com um câncer de esôfago em abril de 2024, no qual teria sofrido metástase. Além disso, ele também lidava com uma doença autoimune, que afetava seus rins.
A notícia foi dada pelo atual presidente do Uruguai, Yamandú Orsi, que revelou no domingo (11), que Pepe passava por “um momento crítico de saúde” durante uma entrevista ao jornal argentino Tiempo. “Estamos tentando protegê-lo e impedi-lo de fazer coisas que possam prejudicá-lo. Algumas das ações recentes parecem tê-lo afetado”, comentou Orsi à imprensa.
Em janeiro, Pepe chegou a comentar sobre seu estado de saúde: “O câncer no esôfago está se espalhando em meu fígado. Não consigo impedir isso com nada. Por quê? Porque sou uma pessoa idosa e tenho duas doenças crônicas. Não posso passar por tratamento bioquímico ou cirurgia porque meu corpo não aguenta”.
Após ter passado por 32 sessões de radioterapia, Mujica decidiu não realizar mais nenhum tratamento para a doença e pediu que os médicos evitassem prolongar seu sofrimento. “O guerreiro tem direito ao seu descanso”, expressou.
Em dezembro de 2024, ele passou por uma cirurgia relacionada ao câncer e ficou um final de semana internado para recuperação. Durante o procedimento, feito em Montevidéu, foi colocado um stent no esôfago, um dispositivo que auxilia na autoexpansão para permitir a passagem de alimentos. Mujica havia relatado anteriormente que o canal do esôfago havia se estreitado e por isso precisaria da cirurgia.
“É duplamente complexo no meu caso porque padeço de uma doença imunológica há mais de 20 anos que me afetou, entre outras coisas, os rins, o que cria óbvias dificuldades para quimioterapia e cirurgia. Tudo isso está sendo avaliado”, disse em uma entrevista em abril de 2024.
Mesmo diante da fragilidade imposta pela doença, Mujica manteve a lucidez e a serenidade que sempre marcaram sua trajetória. Sabia que seu tempo estava chegando ao fim — e, como em tantos momentos de sua vida pública, fez da despedida uma lição de humanidade e esperança. Em um de seus últimos discursos, durante um ato de encerramento de campanha em 2024, deixou palavras que agora ecoam como legado: “Sou um velho partindo. Precisamos trabalhar pela esperança. Eu te entrego meu coração. Preciso agradecer à vida porque, quando estes braços partirem, haverá milhares de braços para me substituir. Adeus”.
Entenda a doença
O câncer de esôfago se desenvolve quando as células que revestem internamente o esôfago — canal que conecta a garganta ao estômago — sofrem alterações e começam a se multiplicar de forma desordenada. À medida que progride, o tumor pode se expandir para camadas mais profundas do órgão e até comprometer estruturas vizinhas.
“Embora seja menos falado, ele representa um desafio importante na oncologia. Avanços em terapias e estratégias de diagnóstico têm contribuído para oferecer alternativas mais eficazes de tratamento, mas a conscientização segue sendo essencial”, afirma Mauro Donadio, oncologista da Oncoclínicas&Co.
Segundo o especialista, os dois tipos mais frequentes da doença são o adenocarcinoma e o carcinoma de células escamosas. Embora menos comuns, também podem surgir tumores como linfomas, melanomas e sarcomas na região esofágica, mas esses casos são considerados bastante raros. No cenário global, o câncer de esôfago ocupa a oitava posição entre os mais diagnosticados.
Tipos de câncer de esôfago
- Carcinoma de células escamosas — a camada interna do esôfago (mucosa) é revestida por células escamosas. O câncer originado nessas células é chamado de carcinoma de células escamosas. Ele pode ocorrer em qualquer lugar ao longo do esôfago, mas é mais comum na região do pescoço (esôfago cervical) e nos dois terços superiores da cavidade torácica (esôfago torácico superior e médio);
- Adenocarcinoma — Os cânceres que começam nas células glandulares (células que produzem muco) são chamados de adenocarcinomas. São frequentemente encontrados no terço inferior do esôfago (esôfago torácico inferior) e transição esôfago-gástrica.
Sintomas
A neoplasia pode evoluir de forma silenciosa nas fases iniciais, o que pode atrasar o diagnóstico. Às vezes os primeiros sinais que se manifestam podem ser inespecíficos e subvalorizados e isso pode explicar o achado de uma doença já está mais avançada ao diagnóstico.
“Mas em muitos casos os pacientes relatam sensação de alimento parado na garganta ou no peito, dificuldade para engolir, dor ou queimação no tórax e uma perda de peso significativa e sem explicação”, afirma o especialista.
Outros sintomas possíveis do câncer do esôfago podem incluir:
- Rouquidão;
- Tosse persistente;
- Vômitos;
- Hemorragia digestiva.
“Persistindo qualquer desconforto, é essencial buscar avaliação médica para investigar a causa. Embora esses sintomas não signifiquem necessariamente um câncer de esôfago, apenas um diagnóstico preciso pode indicar o melhor caminho a seguir e garantir que o paciente receba o tratamento mais apropriado”, orienta.
Prevenção
Como forma de prevenção, é fundamental evitar alguns hábitos que podem aumentar os riscos de desenvolvimento da doença. São eles:
- Ingerir bebidas quentes demais (em temperatura igual ou superior 65ºC)
- Tabagismo
- Inalar poeiras de construção civil, vapores de combustíveis, entre outros
- Consumir bebidas alcóolicas
- Exposição a ambientes com radiação ionizantes (raio X e Gama)
- Obesidade
Um levantamento divulgado no periódico Annals of Internal Medicine apontou que o consumo frequente de bebidas muito quentes pode estar associado ao aumento do risco de câncer de esôfago — que se eleva ainda mais quando há o hábito de fumar ou consumir álcool.
“Felizmente, o câncer de esôfago pode ser prevenido, mas é importante que a população em geral deixe alguns hábitos de lado. Manter uma dieta equilibrada, não fumar, praticar atividades físicas regularmente e não ingerir bebidas alcóolicas ou quentes demais, como chás, chimarrão, entre outros, são alternativas para contornar o problema. Vale lembrar ainda que a vacinação contra o HPV também pode evitar que o carcinoma de células escamosas do esôfago seja causado pelo vírus. Além do câncer de esôfago, ela também pode auxiliar na prevenção do câncer do colo do útero, ânus, boca, etc”, alerta.
“O lado positivo é que essa é uma doença que pode, em muitos casos, ser evitada com mudanças simples no estilo de vida”, destaca. “Evitar o tabagismo, moderar o consumo de álcool, manter uma alimentação balanceada, praticar exercícios físicos e não ingerir líquidos excessivamente quentes são atitudes que reduzem significativamente o risco. Além disso, a vacinação contra o HPV é uma aliada importante, não só na prevenção do câncer de esôfago associado ao vírus, mas também de outros tipos, como o de colo do útero, ânus e cavidade oral”.
Diagnóstico
Após a queixa do paciente, o médico irá solicitar uma endoscopia digestiva alta (EDA) com biópsia e em seguida, após a confirmação da doença, exames de imagem para analisar o estadiamento da neoplasia. Os mais comuns são:
- Endoscopia — exame realizado com o paciente sedado em que um endoscópio com câmera avalia a parte interna do esôfago. Durante a endoscopia, são retirados fragmentos de lesões identificadas;
- Ultrassom endoscópico — uma sonda que emite ondas sonoras fica no final de um endoscópio. Este teste é feito ao mesmo tempo que a endoscopia digestiva alta e é útil para determinar o tamanho de um câncer de esôfago e o quanto ele cresceu em áreas próximas. Também ajuda a mostrar se os gânglios linfáticos foram afetados pelo câncer;
- Broncoscopia — pode ser feita para cânceres que estão localizados na parte superior do esôfago. O intuito é ver se ele está invadindo a traqueia ou brônquios (tubos que conduzem o ar da traqueia aos pulmões);
- Toracoscopia e laparoscopia — são exames que permitem que o médico veja os gânglios linfáticos e outros órgãos próximos ao esôfago dentro do tórax (por toracoscopia) ou no abdômen (por laparoscopia) por meio de uma câmera. Também podem ser usados para obter amostras de biópsia. São exames realizados com o paciente anestesiado; e
- Tomografia computadorizada (TC) — a TC de tórax, abdomen e pelve desempenha um papel crucial na detecção de linfonodos metastáticos, de metástases hematogênicas e também na avaliação do grau de acometimento local do tumor.
- PET-CT – o exame mostra se existem alterações no metabolismo celular, produzindo imagens com tecnologia digital e recursos de raio-x. Além disso, ele analisa em qual estágio o tumor está, para que seja possível planejar o tratamento. O procedimento consiste na aplicação de uma substância que emite baixas doses de radiação à base de glicose por via venosa. Com isso, o especialista poderá investigar o consumo de glicose no organismo e eventuais problemas.
Tratamento
Após a confirmação do diagnóstico, o plano de tratamento é definido de forma individualizada, levando em conta o estágio da doença e as condições clínicas do paciente. As opções podem incluir cirurgia, radioterapia, quimioterapia, imunoterapia ou uma combinação entre elas.
“Em alguns casos, especialmente quando o tumor está mais avançado ou se espalhou para outras regiões do corpo, recorremos à quimioterapia sistêmica e, em determinadas situações, à imunoterapia. Já em casos localizados, é possível iniciar com quimioterapia e radioterapia para reduzir o tumor antes da cirurgia. Tudo é pensado para oferecer as melhores chances de controle da doença e qualidade de vida para o paciente”, finaliza Mauro Donadio.







