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Em 1637, o filósofo francês René Descartes publicou o livro “O discurso do método”. Nesta obra ele cunhou a frase “cogito, ergo sum”, “penso, logo existo”. Em tempos de Inteligência Artificial, corremos o risco de pensar menos e isso é extremamente perigoso.
A história registra o que aconteceu com a jovem Hannah Arendt, com apenas 26 anos de idade, detida pela Gestapo em Berlim, seu mundo começou a desmoronar. Jovem alemã, de origem judia, mente brilhante que frequentava grupos de intelectuais e escrevia sobre filosofia política. O brilhantismo da jovem Hannah a permitia ler Aristóteles em grego.
Com a ascensão de Adolf Hitler ao poder, em janeiro de 1933, tudo começou a mudar. Em poucos dias a vida da jovem mudou para sempre, virou do avesso. Acusada de coletar material sobre antissemitismo na Biblioteca pública foi presa e levada a interrogatório. A insegurança pairou sobre sua vida e seus dias futuros. Oito dias na prisão. Resistiu silenciosamente. Não entregou seus amigos. Sem grandes explicações, sua liberdade voltou. Foi solta e voltou para sua casa. Pegou sua mãe, sabia que não tinha mais tempo e resolveu fugir da Alemanha. Atravessaram a fronteira a pé, pelas montanhas entre Alemanha e Tchecoslováquia. “Sem lenço e sem documentos”, sem dinheiro sem destino, sem futuro. Apenas a urgência e a esperança de chegar viva a um lugar seguro. Assim, por 18 anos, viveu sem pátria, primeiro na França e, depois, Estados Unidos. Sobreviveu do que escrevia e ensinava, resistentemente. Este foi o ambiente que gestou sua obra mais importante, “As origens do totalitarismo”, editada em 1951. Nesse livro, com mais de 600 páginas, Hannah Arendt tenta entender e explicar como pessoas simples aceitam regimes monstruosos. Como pessoas comuns aceitam o impensável, a barbárie…
Dez anos depois da publicação de sua obra, em 1961, ela volta à sua Alemanha pela primeira vez desde sua fuga e no pós-guerra. Voltou como repórter, como alguém que ainda tentava entender o que tinha acontecido. Ela cobriu, em Jerusalém, o julgamento de Adolf Eichmann, um dos arquitetos do Holocausto. Esta experiência marcaria para sempre sua vida e seu pensamento. Hannah esperava encontrar um monstro no julgamento. Mas o que viu foi um homem simples, comum. Um homem que cumpria ordens e assinava burocraticamente papéis. Um homem que abriu mão da faculdade de pensar. Não pensava no que fazia. Ali, Hannah Arendt criou um conceito que aperfeiçoou a filosofia política, a “banalidade do mal”. O conceito de que o mal, em sua forma mais terrível e intensa, não vem de gênios da maldade. Vem de pessoas simples, comuns, que pararam de pensar. Que apenas cumprem ordens.
A obra de Hannah Arendt deixa-nos uma grande lição. Pensar é um ato de autêntica resistência, um ato de coragem! “Penso, logo resisto!”.
É isso!
Rev. Ailton Gonçalves Dias Filho, Pastor Presbiteriano, Professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie