Inteligência Artificial e o futuro do trabalho: quais são os reais impactos na empregabilidade dos profissionais?

Inteligência Artificial e o futuro do trabalho: quais são os reais impactos na empregabilidade dos profissionais?

7 de fevereiro de 2024 0 Por Redação Em Notícia

Por Durval Jacintho*

Uma das questões que mais geram insegurança e receio sobre o uso intensivo da Inteligência Artificial (IA) Generativa é a possível extinção de empregos. De acordo com o Relatório de Inteligência Artificial da Opinion Box, 38% das pessoas acreditam que a utilização da inteligência artificial pode ocasionar a perda de empregos e causar impacto socioeconômico. De certo há muita especulação e incerteza, mas ninguém pode prever ainda, com algum grau de precisão, os reais impactos desta nova tecnologia.

Tal como ocorreu nas revoluções industriais passadas, empregos perdidos foram substituídos por outros, então acredito que lutar contra a inteligência artificial não seja a melhor alternativa. O movimento Ludista – surgido na Inglaterra no século XVIII, contrário ao uso da tecnologia, quebrando as máquinas como forma de protesto contra a mecanização e as más condições de trabalho – se mostrou ineficaz diante da evolução tecnológica que resultou na 1ª Revolução Industrial. Aliás, segundo o estudo da Opinion Box, 67% das pessoas concordam que os profissionais que não aprenderem a usar a inteligência artificial podem ficar em desvantagem no mercado de trabalho. Então, como lidar com essa contradição?

Existem diversas projeções sobre a perda de empregos provocadas pela IA, porém não há muitas bases sólidas sobre o real alcance da tecnologia. Surpresa: nós ainda não vivenciamos o suficiente a IA para chegar lá e ver acontecer. Além disso, poucos falam sobre os novos empregos que estão sendo criados. O Fórum Econômico Mundial (WEF – World Economic Forum) estimou que 85 milhões de empregos serão perdidos até 2025, mas que 97 milhões de novos empregos serão criados.

Uma pesquisa da consultoria Gartner divulgada em 2023 e feita com 821 executivos de negócios que atualmente planejam implementar IA generativa em todas as funções de negócio mostra que há uma redução prevista do números de funcionários com a adoção da IA Generativa. Essa redução deve crescer até 8,2% em 2026. Ao mesmo tempo, 51% desses executivos relatam que irão adicionar pessoal com experiência em IA.

Ainda, entre 42% e 50% dos funcionários destas organizações pesquisadas relatam uma expectativa de delegação parcial ou completa à IA de suas tarefas administrativas e físicas de rotina, como geração de imagens e vídeos, resumo de informações e gestão do calendário. Por outro lado, os funcionários mais preocupados com a mudança ou eliminação de seu emprego expressam menor intenção de permanecer com a organização atual. Esta rotatividade potencial é um dado a ser considerado pelas organizações, pois ela pode custar milhões de dólares por ano e uma perda significativa de produtividade. Assim, é preciso estratégia e planejamento neste cenário.

Em colaboração com a Accenture, o Fórum Econômico Mundial publicou, em dezembro do ano passado, na série “Jobs of Tomorrow”, um documento de análise do impacto potencial dos grandes modelos de linguagem (LLM´s – Large Language Models) nos empregos em vários setores, mostrando uma mudança de paradigma na forma como interagimos com informações e, por conseguinte, na forma como trabalhamos.

A análise mostra que, embora a aplicação dos modelos de linguagem possa levar a ganhos significativos de produtividade e à criação de novos tipos de empregos, existe também o risco real de substituição das funções existentes, exacerbando disparidades socioeconômicas e criando um sentimento de insegurança na empregabilidade entre a força de trabalho global. Na pesquisa, o Fórum identificou que mais de 40% das horas de trabalho poderiam ser transformadas em modelos de linguagem por meio da automação e da inteligência artificial generativa.

Os empregos mais impactados serão os de tarefas rotineiras e repetitivas, que não precisam de um alto nível de comunicação interpessoal. Os empregados com maior potencial de aumento de oportunidades são os que enfatizam o pensamento crítico e complexo e as habilidades de resolução de problemas, especialmente aquelas em ciências, tecnologia, engenharia e matemática, conhecidas pelo acrônimo STEM – Science, Technology, Engineering and Mathematics.

Para orientar as organizações, o documento do Fórum Econômico Mundial propõe algumas ferramentas para a definição de estratégias a partir de três transformações principais que a IA irá provocar no futuro do mercado de trabalho. As transformações são o risco de mudanças e deslocamento dos empregos, considerando que os modelos de linguagem são capazes de executar muitas das tarefas de linguagem usadas no trabalho; a qualidade do emprego, não somente pela afetação do número de vagas, mas pela natureza do trabalho; e é a necessidade contínua de aprendizado e requalificação dos profissionais (reskilling).

As estratégias de negócios podem ser enquadradas em três principais planos de ação para as empresas cuidarem da abordagem da IA nas organizações:

1 – Promover a conscientização dos trabalhadores, o que envolve informá-los e educá-los sobre os impactos potenciais dos modelos de linguagem em suas funções atuais e nas futuras perspectivas de emprego, capacitando-os para envolverem-se proativamente com o cenário de evolução tecnológica;

2 – Facilitar a mudança organizacional, ou seja, as empresas precisam adaptar suas estruturas, processos e estratégias para aproveitar os benefícios de novas tecnologias, mitigando os riscos associados com tais transformações.

3 – Adaptar as normas e cultura organizacional para remodelar atitudes, comportamentos e valores dentro do local de trabalho, a fim de promover agilidade na resposta às mudanças.

Por sua vez, cada plano de ação envolve algumas atividades para a transição segura da força de trabalho em conformidade com os modelos de linguagem e, consequentemente, com a atuação da inteligência artificial no ambiente de trabalho. São elas:

  • Implantar uma previsão proativa e comunicar expectativas quanto ao uso da inteligência artificial, assim como garantir o design inclusivo de aplicativos de IA e elaborar programas amplos de conhecimento sobre os modelos de linguagem ao lado de trabalhadores que lidam diretamente com a inteligência artificial, visando a conscientização do trabalhador;
  • Configurar e fazer uso de mercados de trabalho internos, além de implementar estruturas de governança transparentes para modelos de linguagem e priorizar uma abordagem que considera as habilidades de toda a organização em prol da mudança organizacional;
  • Garantir maior agilidade da força de trabalho, além de aumentar a conscientização sobre os benefícios dos modelos de linguagem no local de trabalho e oferecer oportunidades de aprendizado para facilitar a mudança de normas e da cultura da empresa.

O estudo conclui que a transformação deve ser gerida de forma responsável. Para se beneficiar totalmente da inteligência artificial e dos modelos de linguagem, as empresas devem primeiro abordar as preocupações em torno de ética, confiança, governança e legalidade.

Por isso, líderes empresariais e Conselhos de Administração devem considerar nas estratégias de governança da empregabilidade na era da IA o equilíbrio entre aproveitar as oportunidades de maior produtividade e competitividade que a tecnologia permite e gerenciar possíveis disrupções sociais na organização e no relacionamento com os stakeholders.

Durval Jacintho é Engenheiro Eletrônico e Mestre em Automação Industrial pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e consultor internacional em tecnologia pela DJCon, com 38 anos de experiência C-Level no mercado de tecnologia e telecomunicações. Conselho de Administração certificado pelo Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) e vice-coordenador da Comissão de Ética do IBGC e membro da Comissão de Inovação do Capítulo São Paulo Interior. Integra o Comitê de Gestão do Hub da Gestão e o Chief.group.

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