Um novo estudo apresentado no ESC Congress 2026, em Munique, amplia as evidências sobre o uso de estatinas na prevenção cardiovascular em pessoas idosas. O estudo STAREE mostrou uma redução de 30% nos principais eventos cardiovasculares entre pessoas com 70 anos ou mais, sem histórico de doença cardiovascular, diabetes ou demência, que utilizaram atorvastatina em comparação ao grupo que recebeu placebo. O trabalho foi apresentado no dia 29 de agosto e publicado simultaneamente no New England Journal of Medicine.
A pesquisa, financiada por entidades públicas de pesquisa e sem apoio da indústria farmacêutica, acompanhou 9.971 pessoas na Austrália, com idade média de 74,7 anos. Os participantes foram divididos aleatoriamente entre o uso diário de 40 mg de atorvastatina e placebo e acompanhados por um período mediano de 5,9 anos. Eventos como morte cardiovascular, infarto não fatal, acidente vascular cerebral ou necessidade de revascularização ocorreram em 6% dos participantes que receberam atorvastatina e em 8,3% do grupo placebo. A redução foi associada principalmente a uma menor ocorrência de infarto do miocárdio e de procedimentos de revascularização coronariana.
Para o Diretor de Compliance da Sociedade de Cardiologia do Estado do Rio Grande do Sul (SOCERGS), Dr. Fábio Michalski Velho, o resultado acrescenta uma informação importante ao conjunto de evidências já existente sobre essa classe de medicamentos.
“As estatinas são utilizadas há décadas e têm benefícios bem estabelecidos na prevenção cardiovascular. O que esse novo estudo acrescenta é uma evidência robusta especificamente para pessoas com 70 anos ou mais em prevenção primária, em uma população que esteve menos representada nos grandes estudos anteriores. Os resultados reforçam que a indicação desses medicamentos deve ser baseada no risco cardiovascular de cada paciente e nas melhores evidências disponíveis”, afirma.
Estas medicações atuam principalmente na redução do colesterol LDL e são utilizadas para diminuir o risco de complicações associadas à aterosclerose, como infarto e acidente vascular cerebral. O novo trabalho é especialmente relevante por avaliar pessoas que ainda não haviam apresentado doença cardiovascular clínica, cenário conhecido como prevenção primária.
O estudo também mostrou que o tratamento não aumentou de forma significativa a chamada sobrevida livre de incapacidade, um desfecho que considerou conjuntamente morte por qualquer causa, demência ou incapacidade física persistente. O resultado é considerado tranquilizador porque não apontou aumento relevante do risco de declínio cognitivo associado ao medicamento, mas não sustenta o uso de estatinas com o objetivo específico de prevenir demência nesta população. Eventos adversos graves foram pouco frequentes e ocorreram em 2,7% dos participantes tanto no grupo atorvastatina quanto no grupo placebo. Eventos musculoesqueléticos, hepatobiliares e relacionados ao diabetes foram mais frequentes entre aqueles que receberam o medicamento.
Para o médico, Fábio Michalski Velho, esses dados também reforçam a importância do acompanhamento médico.
“A utilização da estatina não deve ser automática apenas com base na idade. A decisão de iniciar uma estatina em idosos deve considerar o risco cardiovascular individual, outras doenças, os medicamentos já utilizados, a expectativa de benefício ao longo do tempo e as preferências de cada paciente.”
A SOCERGS destaca que recomendações médicas devem acompanhar a evolução das evidências científicas. Grandes estudos randomizados como o STAREE ajudam a responder dúvidas ainda existentes e permitem que a prevenção cardiovascular seja cada vez mais individualizada.
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