Eleições não podem travar decisões das empresas para 2027
21 de outubro de 2026Dados da Receita Federal mostram que a adaptação à reforma tributária já começou e exige revisão de custos, contratos e planejamento financeiro antes do próximo ano
A reforma tributária já começou a mudar a rotina das empresas brasileiras. Dados divulgados pela Receita Federal em 9 de outubro mostram que 86% dos documentos fiscais emitidos por estabelecimentos obrigados já apresentam o destaque da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS).
O levantamento também aponta que 67% desses estabelecimentos incluíram o novo tributo em todas ou em parte das notas fiscais. Os números surgem após o primeiro turno das eleições, realizado em 4 de outubro, e mostram que a preparação para 2027 avança enquanto o país aguarda a definição do próximo governo.
Para Jean Lucas Paiva, contador e diretor comercial da Consult Seven, empresa especializada em contabilidade nacional e internacional, consultoria tributária e estruturação patrimonial, o planejamento tributário de 2027 não deve ficar condicionado ao resultado das urnas.
O empresário pode esperar o resultado das eleições para avaliar perspectivas econômicas, mas não deve adiar decisões que dependem de regras já aprovadas. “Atualizar notas fiscais e sistemas é apenas uma parte da preparação. Também é necessário entender como as mudanças afetarão custos, contratos e fluxo de caixa. Estar em conformidade com uma obrigação fiscal não significa ter um planejamento tributário completo”, afirma.
Planejamento tributário exige revisão das contas
A partir de janeiro de 2027, a CBS começará a ser cobrada, substituindo o PIS e a Cofins. Já o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) seguirá um calendário de transição, com substituição gradual do ICMS e do ISS entre 2029 e 2032, conforme o cronograma da Receita Federal.
Embora tenham prazos diferentes, essas mudanças exigem atenção ao aproveitamento de créditos tributários, aos custos de aquisição e à formação dos preços. A análise é especialmente relevante para empresas com diferentes atividades, fornecedores ou unidades de negócio.
“Uma empresa pode continuar vendendo o mesmo produto, para o mesmo cliente, e descobrir que a operação deixou de apresentar a rentabilidade esperada. Isso acontece porque a tributação influencia os custos, os créditos disponíveis e o preço final. Não basta saber quanto será pago de imposto. É preciso entender quanto dinheiro permanecerá na empresa depois de cada operação”, explica o contador.
Contratos e fluxo de caixa entram na revisão
O orçamento para 2027 também precisa considerar contratos que permanecerão vigentes durante a transição tributária. Dependendo das condições negociadas, poderá ser necessário revisar cláusulas relacionadas à formação de preços, ao repasse de custos e aos prazos de pagamento.
Outro ponto é o fluxo de caixa, principalmente em companhias que trabalham com recebimentos parcelados. A relação entre faturamento, despesas e obrigações fiscais deve ser analisada para evitar que o crescimento das vendas esconda dificuldades financeiras.
“Uma empresa pode aumentar o faturamento e, mesmo assim, enfrentar problemas para cumprir suas obrigações se não calcular corretamente a necessidade de capital de giro. O planejamento tributário precisa fazer parte das decisões comerciais e financeiras, porque uma mudança na estrutura de custos pode comprometer a margem de uma operação inteira”, ressalta o especialista
Estrutura societária também merece atenção
A preparação para o próximo exercício pode incluir uma avaliação da estrutura societária, especialmente em grupos empresariais com diferentes atividades ou patrimônio relevante. A revisão permite verificar se a organização atual continua adequada aos objetivos do negócio e se existe separação entre os bens pessoais dos sócios e os recursos da empresa.
Dependendo do caso, a análise também pode envolver holdings patrimoniais, estruturas utilizadas para administrar bens e participações societárias. Para o contador, porém, qualquer reorganização deve considerar seus custos e efeitos econômicos, contábeis e jurídicos. “Nem toda empresa precisa mudar sua estrutura societária ou constituir uma holding. O primeiro passo é avaliar se a organização atual oferece segurança e condições de crescimento. Uma reestruturação sem estudo pode criar despesas e obrigações desnecessárias. O planejamento patrimonial precisa ter uma finalidade concreta”, destaca Paiva.
Resultado das urnas não altera automaticamente as regras
Embora o próximo governo possa apresentar novas propostas econômicas, o resultado eleitoral não modifica automaticamente o cronograma da reforma tributária. Eventuais alterações na legislação dependem dos procedimentos legais e legislativos aplicáveis.
Para Jean Lucas, o último trimestre de 2026 deve ser dedicado à revisão de sistemas contábeis, cadastros fiscais, contratos e projeções financeiras, permitindo que as empresas iniciem o próximo exercício com maior previsibilidade. “Planejamento tributário não significa tentar prever quem vencerá a eleição. Significa trabalhar com a legislação vigente, conhecer os números da empresa e preparar a operação para diferentes circunstâncias econômicas. O resultado das urnas pode influenciar expectativas, mas não substitui a necessidade de organização e análise financeira”, conclui o contador.





