Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência: conheça 34 mulheres cientistas que revolucionaram a história
10 de fevereiro de 2026Data criada pela ONU reforça a urgência de incentivar meninas, desde cedo, a ocupar áreas do conhecimento e espaços historicamente masculinos
Celebrado nesta quarta-feira, 11 de fevereiro, o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência foi instituído em 2015 pela Organização das Nações Unidas (ONU) para reconhecer a contribuição feminina ao avanço científico e, ao mesmo tempo, chamar atenção para as desigualdades de gênero ainda presentes nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM).
O Brasil ainda tem um caminho longo quando o assunto é a igualdade de direitos e acessos entre homens e mulheres nessas áreas, mas há avanços significativos acontecendo. Levantamento feito pela Nexus – Pesquisa e Inteligência de Dados, a partir de dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), mostra que o número absoluto de mulheres que entraram nas graduações em ciências exatas e biológicas aumentou 29% entre 2013 e 2023. Contudo, em 2023, 74% dos ingressantes nos cursos de STEM eram homens, enquanto apenas 26% eram do sexo feminino – números que mostram que é preciso incentivar mais mulheres nessas áreas.
Ao longo da história, mulheres enfrentaram barreiras sociais, institucionais e culturais para estudar, pesquisar e publicar. Muitas cientistas mulheres protagonizaram descobertas fundamentais e fizeram contribuições decisivas para a humanidade, mas tiveram seus feitos ignorados, atribuídos a colegas homens ou simplesmente ignorados.
Na opinião da professora de Física Kharyna Rodrigues, da Escola Bilíngue Aubrick, de São Paulo (SP), revisitar essas trajetórias é essencial para inspirar novas gerações. “Quando apresentamos às meninas exemplos reais de mulheres que fizeram ciência de excelência, rompemos a ideia de que esse é um espaço masculino. A representatividade não é simbólica: ela influencia escolhas, autoestima e projetos de vida”, afirma.
Na avaliação da docente, esse incentivo precisa começar de forma articulada entre escola e família, desde a primeira infância. “A escola tem o papel de criar ambientes de aprendizagem que estimulem a curiosidade, o pensamento científico e o protagonismo das meninas, oferecendo referências femininas, projetos práticos e liberdade para errar e experimentar. Já a família é fundamental para reforçar essa confiança no dia a dia, evitando estereótipos, valorizando o interesse das meninas por matemática, tecnologia e ciências e encorajando perguntas, desafios e descobertas. Quando escola e família caminham juntas, ampliam-se as possibilidades para que as meninas se reconheçam como cientistas em potencial”, acrescenta Kharyna.
A seguir, a especialista em educação da Aubrick lista 34 cientistas inspiradoras cujas histórias valem a pena conhecer e divulgar.
1. Ada Lovelace: a mãe da computação universal
Ada Lovelace (1815–1852), matemática e escritora inglesa, era filha do poeta Lord Byron e, incentivada pela mãe, recebeu uma formação científica incomum para mulheres de sua época. Ao estudar a Máquina Analítica de Charles Babbage, escreveu o que é considerado o primeiro algoritmo da história, prevendo que máquinas poderiam processar qualquer símbolo, não apenas números. Mesmo com ideias revolucionárias, teve seu trabalho minimizado e ficou à margem da comunidade científica por ser mulher. Seu legado só foi plenamente reconhecido décadas depois, tornando-se símbolo da origem da programação e da computação moderna.
2. Caroline Herschel: a primeira a descobrir um cometa
Caroline Herschel (1750–1848), astrônoma nascida em Hanover, Alemanha, superou uma infância marcada por uma doença e limitações educacionais para se tornar uma das primeiras cientistas profissionais mulheres da história. Instalou-se na Inglaterra com seu irmão William, onde, além de colaborar com suas pesquisas, fez descobertas próprias ao identificar o cometa 35P/Herschel-Rigollet, tornando-se a primeira mulher a descobrir um cometa, e uma figura central na catalogação de nebulosas e estrelas. Apesar de seu papel fundamental, por muito tempo foi lembrada apenas como assistente de seu irmão, e seu trabalho científico foi frequentemente ofuscado pelo sucesso dele.
3. Chien-Shiung Wu: a primeira dama da física
Chien-Shiung Wu (1912–1997) foi uma física nascida perto de Xangai, e a única chinesa a integrar o Projeto Manhattan, programa de pesquisa e desenvolvimento de bombas nucleares durante a Segunda Guerra Mundial. Ela provou experimentalmente que a paridade não é conservada na interação fraca, contribuindo para o desenvolvimento de métodos de separação de isótopos essenciais na física nuclear. Apesar de essa descoberta experimental ter possibilitado que seus colegas (Yang e Lee) fossem laureados com o Nobel, esse episódio é frequentemente citado como uma das maiores injustiças de gênero da Academia Sueca.
4. Dorothy Vaughan: primeira mulher negra chefe de departamento da NASA
Dorothy Vaughan (1910–2008) foi uma matemática e programadora americana que começou sua carreira em um tempo de segregação racial, tornando-se a primeira supervisora negra das computadoras humanas no Centro Langley da NASA, onde liderou equipes que calcularam trajetórias de voo essenciais para programas espaciais. Seu domínio de linguagens emergentes, como FORTRAN, e sua habilidade em programação ajudaram a agência na transição da computação manual para a eletrônica durante as décadas de 1950 e 1960. Embora tenha enfrentado barreiras de gênero e raça, apenas recentemente sua contribuição vem sendo amplamente reconhecida.
5. Enedina Alves Marques: a primeira engenheira negra do Brasil
Enedina Alves Marques (1913–1981) foi uma engenheira civil brasileira nascida em Curitiba (PR) que, superando desigualdades raciais, de gênero e econômicas, tornou-se em 1945 a primeira mulher negra a se formar em engenharia no Brasil, pela Universidade Federal do Paraná. Crescendo em uma sociedade em que mulheres e pessoas negras tinham pouco acesso à educação superior, enfrentou preconceitos e barreiras dentro e fora da universidade, sendo frequentemente a única mulher em ambientes dominados por homens. Após a formatura, atuou em obras significativas no estado do Paraná, incluindo a construção da Usina Capivari-Cachoeira, e trabalhou no Departamento Estadual de Águas e Energia.
6. Gabriela Barreto Lemos: a física por trás da imagem quântica
Gabriela Barreto Lemos (1982) é uma física brasileira que realizou pesquisa de destaque em óptica e informação quântica na Universidade de Viena. Em 2014, liderou um experimento publicado em uma das revistas de maior prestígio no meio científico, a Nature, demonstrando a “imagem quântica com fótons não detectados” – a imagem de um objeto (popularmente divulgada como a silhueta de um “gato de Schrödinger”) reconstruída a partir de correlações quânticas/indistinguibilidade, mesmo quando os fótons responsáveis pela formação do padrão de imagem não interagem diretamente com o objeto. O trabalho ganhou grande repercussão por traduzir conceitos abstratos da física quântica em um resultado visual e por apontar aplicações potenciais em imageamento com menor dano em certos comprimentos de onda.
7. Grace Hopper: a pioneira da programação moderna
Grace Brewster Murray Hopper (1906–1992) foi uma matemática e almirante da Marinha dos Estados Unidos que se tornou uma das primeiras programadoras modernas ao trabalhar no computador Harvard Mark I durante a Segunda Guerra Mundial, escrevendo também um dos primeiros guias sobre operação de computadores. Após o conflito, liderou o desenvolvimento de compiladores e linguagens de programação como o FLOW-MATIC, que inspiraram a criação do COBOL, um dos primeiros e mais amplamente usados idiomas computacionais de negócios. Em um campo dominado por homens, enfrentou resistência — inclusive sendo inicialmente rejeitada por idade para o serviço ativo — e muitas vezes teve sua contribuição subestimada ou atribuída a outros. Seu legado inclui termos como “debugging” e uma carreira que a levou a se tornar a oficial mais velha em serviço ativo na Marinha dos EUA.
8. Graziela Maciel Barroso: a grande dama da botânica brasileira
Graziela Maciel Barroso (1912–2003) foi uma botânica e professora brasileira nascida em Corumbá (MS) que se tornou referência na sistemática e classificação de plantas tropicais, apesar de ter iniciado oficialmente sua formação acadêmica apenas aos 47 anos, após anos de dedicação prática e orientação de estudantes no Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Ao longo de sua carreira, identificou dezenas de gêneros e mais de 130 novas espécies de plantas, tendo publicado obras fundamentais que se tornaram referência internacional em botânica. Seu legado inclui o reconhecimento internacional, com homenagens como a Millennium Botany Award e espécies nomeadas em sua homenagem.
9. Hedy Lamarr: a precursora da comunicação sem fio
Hedy Lamarr (1914–2000) foi uma atriz nascida em Viena, Áustria, que alcançou grande sucesso em Hollywood nas décadas de 1930 e 1940, mas também tinha um talento pouco conhecido para invenções técnicas. Durante a Segunda Guerra Mundial, junto com o compositor George Antheil, ela desenvolveu e patenteou um sistema de “salto de frequência” (frequency-hopping) para orientar sinais de rádio de forma a evitar interferências e bloqueios, ideia que só décadas depois se revelaria fundamental para tecnologias sem fio modernas, como Bluetooth, GPS e redes sem fio. Embora essa contribuição tenha ficado praticamente ignorada — e muitas vezes reduzida em sua época à sua imagem de estrela de cinema — a invenção acabou sendo reconhecida postumamente, com sua inclusão no National Inventors Hall of Fame e prêmios póstumos.
10. Hipátia: a primeira matemática grega
Hipátia (c. 350–415 d.C.) foi uma filósofa, astrônoma e matemática grega, filha do matemático e astrônomo Teón de Alexandria, que a educou nas ciências e na filosofia em um período em que mulheres raramente tinham acesso ao conhecimento formal. Atuou como professora e intelectual em Alexandria, centro do saber do mundo antigo. Reconhecida por seus estudos em geometria, álgebra e astronomia, tornou-se uma das mais respeitadas pensadoras de sua época. Em um contexto de intolerância religiosa e política, ela foi assassinada de forma brutal por radicais da época, que a espancaram e mutilaram até a morte. Seu legado permanece como símbolo da liberdade de pensamento e da presença feminina na ciência desde a Antiguidade.
11. Ida Noddack: primeira a mencionar a ideia de fissão nuclear
Ida Noddack (1896–1978) foi uma química e física alemã que se destacou por sua perspicácia teórica e experimental. Em 1934, ao analisar dados sobre absorção de nêutrons, ela sugeriu que certos núcleos poderiam se fissionar — isto é, dividir-se em partes menores — uma ideia que antecipou a descoberta da fissão nuclear, embora tenha sido inicialmente recebida com ceticismo e até ridicularizada pela comunidade científica dominante. Anos depois, quando a fissão foi confirmada experimentalmente por outros pesquisadores e tornou-se central para a física nuclear, a contribuição de Noddack continuou largamente desconhecida ou subestimada.
12. Jaqueline Goes de Jesus: a Barbie cientista
Jaqueline Goes de Jesus (1989) é uma biomédica e pesquisadora brasileira reconhecida internacionalmente por sua atuação decisiva no enfrentamento da pandemia da Covid-19. Em 2020, ela integrou a equipe responsável pelo sequenciamento do genoma do SARS-CoV-2 no Brasil apenas 48 horas após a confirmação do primeiro caso, um feito que colocou o país na liderança global em resposta científica à emergência sanitária. Seu trabalho destacou a importância da ciência aberta, da cooperação internacional e da rápida disseminação de dados genômicos para o controle de epidemias, além de evidenciar o protagonismo de mulheres negras na ciência de ponta. Em reconhecimento ao seu trabalho, a empresa Mattel produziu uma boneca Barbie em sua homenagem.
13. Jennifer Doudna e Emmanuelle Charpentier: a revolução da edição genética
Jennifer Doudna (1964) e Emmanuelle Charpentier (1968) são cientistas responsáveis pelo desenvolvimento da técnica de edição genética CRISPR-Cas9, uma das maiores revoluções científicas do século XXI. A ferramenta permite modificar o DNA com precisão inédita, abrindo novas possibilidades para o tratamento de doenças, a pesquisa biomédica e a agricultura, ao mesmo tempo em que suscita debates éticos globais. Em 2020, tornaram-se as primeiras mulheres a dividir sozinhas um Prêmio Nobel de Química.
14. Jocelyn Bell Burnell: a descobridora dos pulsares
Jocelyn Bell Burnell nasceu em 1943 em Belfast, Irlanda do Norte. É uma astrofísica britânica que identificou pela primeira vez os sinais regulares de pulsações de rádio de um objeto celeste até então desconhecido: os pulsares, estrelas de nêutrons formadas a partir do colapso do núcleo de estrelas massivas no final de suas vidas – sua rotação rápida e extrema regularidade dos seus pulsos, funcionam como “relógios cósmicos” precisos, sendo fundamentais para a compreensão da evolução estelar. Apesar de sua contribuição essencial, o Nobel de Física de 1974 foi concedido apenas ao seu orientador e a outro colega, um exemplo claro de como mulheres cientistas eram frequentemente negligenciadas nas honrarias científicas. Em 2018, doou seu Breakthrough Prize para apoiar estudantes sub-representados em física, reforçando seu compromisso com a diversidade e inclusão na ciência.
15. Katie Bouman: a primeira imagem de um buraco negro
Katie Bouman (1989) é uma cientista americana conhecida por seu trabalho em métodos computacionais de reconstrução de imagens aplicados à astronomia. Ela ganhou destaque ao coordenar a equipe do consórcio internacional Event Horizon Telescope (EHT), que divulgou em 10 de abril de 2019 a primeira imagem de um buraco negro (M87*), construída a partir de dados de uma rede global de radiotelescópios. Seu trabalho foi responsável por comunicar ao grande público como algoritmos e processamento computacional são essenciais para transformar grandes volumes de dados em uma imagem científica interpretável.
16. Katherine Johnson: a matemática que levou o homem à Lua
Katherine Johnson (1918–2020) foi uma americana que desde jovem demonstrou aptidão excepcional em matemática, e cujo talento para cálculos precisos a tornou peça-chave nos primeiros programas espaciais da NASA. Apesar de barreiras raciais e de gênero em uma época de segregação, foi convidada a integrar equipes de elite que resolviam complexos problemas de mecânica orbital. Em um campo dominado por homens brancos, sua contribuição frequentemente era subestimada ou invisibilizada, mas seus cálculos garantiram a segurança e o sucesso de voos pioneiros, incluindo a chegada do homem à Lua em 1969. Décadas depois, Johnson recebeu homenagens como a Medalha Presidencial da Liberdade.
17. Lise Meitner: fundamentou o processo de fissão nuclear
Lise Meitner (1878–1968) foi uma física austríaca cuja pesquisa teórica sobre a divisão do núcleo de átomos pesados levou à compreensão do processo de fissão nuclear, um marco na física que possibilitou o desenvolvimento da energia nuclear. Formada na Universidade de Viena em um tempo em que mulheres raramente eram aceitas em ambientes científicos, ela colaborou por décadas com colegas como Otto Hahn e, junto com seu sobrinho Otto Frisch, elucidou como o núcleo do urânio se divide e libera enorme quantidade de energia. Foi obrigada a deixar a Alemanha nazista por ser judia durante a Segunda Guerra Mundial, vivendo no exílio justamente quando suas descobertas ganhavam repercussão, o que contribuiu para que seu papel fosse minimizado. Ela foi indicada ao Prêmio Nobel 48 vezes ao longo de várias décadas, mas nunca chegou a ser laureada. O prêmio de 1944, por exemplo, coube apenas a seu colega Hahn.
18. Marie Curie: a pioneira da radioatividade
Marie Skłodowska Curie (1867–1934), nascida em Varsóvia sob o domínio russo, enfrentou a exclusão das universidades em seu país e mudou-se para Paris para estudar física e química, tornando-se a primeira mulher a ganhar um Prêmio Nobel. Junto com seu marido Pierre, investigou o fenômeno da radioatividade — termo que ela mesma cunhou — e isolou os elementos polônio e rádio, trabalho que rendeu o Nobel de Física em 1903 e, em 1911, o Nobel de Química, tornando-a a primeira mulher e, até hoje, a única pessoa a ser laureada com dois Prêmios Nobel em áreas científicas distintas. Em uma época em que a participação feminina na ciência era fortemente desencorajada, Curie enfrentou preconceito institucional, incluindo resistência a seu reconhecimento e a barreiras à carreira acadêmica. Seu legado inclui avanços fundamentais em física nuclear e aplicações médicas com radiografia móvel durante a Primeira Guerra Mundial.
19. Marie Tharp: a primeira a mapear o fundo dos oceanos
Marie Tharp (1920–2006) foi uma geóloga e cartógrafa americana que transformou dados brutos de sondagens submarinas em mapas detalhados do fundo dos oceanos, revelando pela primeira vez a topografia completa das dorsais meso-atlânticas. Trabalhando no Lamont-Doherty Earth Observatory, suas representações cartográficas foram fundamentais para confirmar a teoria das placas tectônicas e mudaram a compreensão científica sobre a dinâmica do planeta Terra. Apesar de sua contribuição crucial, por muitos anos ela não recebeu o reconhecimento que merecia — seus mapas foram inicialmente usados por colegas homens sem citação de sua autoria. Hoje, o trabalho de Tharp é celebrado como uma das maiores realizações da geociência do século.
20. Mary Anning: a pioneira da paleontologia
Mary Anning (1799–1847) foi uma paleontóloga e coletora de fósseis inglesa nascida em Lyme Regis, na famosa “Jurassic Coast”, que transformou restos pré-históricos encontrados nos penhascos em descobertas científicas fundamentais sobre a vida no período jurássico. Ao longo da vida, desenterrou o primeiro esqueleto de ichthyosaurus completo, o primeiro plesiosaurus intacto e o primeiro pterossauro encontrado fora da Alemanha, ampliando o conhecimento sobre répteis marinhos e voadores extintos. Apesar de seu profundo impacto na paleontologia, sua falta de educação formal e o fato de ser mulher e de classe social baixa fizeram com que muitos de seus achados fossem creditados a cientistas homens. Embora tenha morrido relativamente jovem e em dificuldades financeiras, sua reputação e reconhecimento cresceu postumamente.
21. Mary Jackson: a primeira engenheira negra da NASA
Mary Winston Jackson (1921–2005) foi uma matemática e engenheira aeroespacial americana nascida em Hampton, Virgínia, que, após se formar em matemática e ciências físicas, trabalhou em várias funções até ingressar em 1951 no National Advisory Committee for Aeronautics (NACA), que depois se tornou a NASA. Inicialmente atuando como “computadora humana”, ela ganhou permissão especial para fazer cursos de graduação em matemática e física junto a colegas brancos e, em 1958, tornou-se a primeira engenheira negra da agência, pesquisando efeitos aerodinâmicos essenciais ao voo de aeronaves e espaçonaves. Nos anos finais de sua carreira, aceitou uma demissão voluntária para liderar programas de equidade de gênero e raça na NASA, impulsionando a contratação e promoção de outras mulheres e minorias.
22. Mileva Marić: física e matemática sérvia
Mileva Marić (1875–1948) foi uma física e matemática sérvia que, em uma época de forte exclusão feminina no ensino superior, ingressou no prestigiado Politécnico de Zurique, onde estudou ao lado de Albert Einstein – posteriormente seu marido. Cartas trocadas entre ela e Einstein revelam uma colaboração intelectual nos anos em que as bases da Teoria da Relatividade foram lançadas. Após o casamento e a maternidade, sua carreira científica foi interrompida, enquanto o reconhecimento público ficou concentrado em Einstein. Seu caso é frequentemente citado como exemplo das contribuições femininas invisibilizadas ao longo do século.
23. Nettie Stevens: a descobridora dos cromossomos X e Y
Nettie Maria Stevens (1861–1912) foi uma bióloga e geneticista americana que forneceu as primeiras evidências conclusivas de que o sexo biológico é determinado por cromossomos específicos, observando em insetos que a presença do cromossomo Y nos espermatozoides conduzia ao desenvolvimento masculino, enquanto sua ausência resultava em fêmeas com cromossomos XX. Sua pesquisa foi fundamental para entender a hereditariedade dos caracteres sexuais — esclarecendo um mistério que intrigava a comunidade científica — mas foi frequentemente ofuscada por colegas homens que receberam maior atenção e crédito público. Mesmo assim, Stevens publicou dezenas de trabalhos e, hoje, seu papel é reconhecido como fundamental para a biologia.
24. Nise da Silveira: a humanização dos tratamentos mentais
Nise da Silveira (1905–1999) foi uma médica psiquiatra brasileira formada pela Faculdade de Medicina da Bahia, que desafiou as práticas invasivas e repressivas da psiquiatria do século passado ao propor tratamentos humanistas centrados na escuta, na arte e nas relações afetivas. Em uma época dominada por práticas como eletrochoque e lobotomia, ela fundou o Museu de Imagens do Inconsciente, onde obras de pacientes ajudaram a revelar a subjetividade humana e transformaram a compreensão do sofrimento mental. Nise enfrentou resistência de colegas e instituições conservadoras que viam suas abordagens como impraticáveis ou subversivas, mas manteve sua prática ética e criativa. Seu legado inspirou gerações de profissionais de saúde mental a valorizarem a dignidade humana, abrindo caminhos para práticas terapêuticas mais humanas no Brasil e no mundo.
25. Rachel Carson: a bióloga que alertou o mundo sobre os impactos ambientais
Rachel Carson (1907–1964) foi uma bióloga marinha e escritora americana que uniu rigor científico e sensibilidade literária em suas pesquisas sobre ecologia e vida marinha, formação que a levou a trabalhar no U.S. Fish and Wildlife Service antes de se dedicar à escrita sobre ciência e meio ambiente. Seu livro Primavera Silenciosa, publicado em 1962, expôs os efeitos devastadores de pesticidas na vida selvagem, na saúde humana e nos ecossistemas — um marco no movimento ambiental global. A obra enfrentou forte resistência de indústrias e críticas por desafiar práticas amplamente aceitas, e Carson sofreu ataques pessoais por ser mulher questionando poderosos interesses econômicos. Apesar disso, seu trabalho desencadeou debates públicos, mudanças em políticas de uso de pesticidas e inspirou a criação da Agência de Proteção Ambiental dos EUA.
26. Rita Lobato Velho Lopes: a primeira médica formada no Brasil
Rita Lobato Velho Lopes (1866–1954) nasceu em Rio Grande (RS) e foi a primeira mulher a se formar em medicina no Brasil em 1887, concluindo o curso na Faculdade de Medicina da Bahia em apenas quatro anos — numa época em que mulheres enfrentavam forte preconceito para acessar a educação superior. Ela começou seus estudos na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e, determinada a conquistar seu diploma, transferiu-se para Salvador, onde defendeu a tese sobre a operação cesariana. Após a formatura, atuou em obstetrícia, ginecologia e clínica geral atendendo pacientes de diferentes classes sociais e frequentemente oferecendo serviços gratuitos, desafiando as expectativas da época.
27. Rosalind Franklin: a química cuja pesquisa foi central para compreender o DNA
Rosalind Elsie Franklin (1920–1958) foi uma química britânica formada pela Universidade de Cambridge, especialista em difração de raios-X, técnica que permitiu observar a estrutura interna de moléculas biológicas com precisão. No início dos anos 1950, no King’s College London, ela produziu imagens experimentais e dados fundamentais — incluindo a famosa “Fotografia 51” — que evidenciaram a forma helicoidal do DNA, informação decisiva para que James Watson e Francis Crick elaborassem o modelo de dupla hélice. Apesar da importância de suas descobertas, Franklin enfrentou barreiras profissionais e de gênero, teve seu trabalho usado sem o devido crédito e não foi reconhecida com o Nobel, prêmio que em 1962 foi concedido a Watson, Crick e Maurice Wilkins.
28. Sônia Guimarães, primeira mulher negra a lecionar no ITA
Sônia Guimarães (1957) é uma física brasileira reconhecida por sua atuação em materiais e dispositivos semicondutores e por romper barreiras históricas em instituições tradicionalmente masculinas. Com doutorado pela University of Manchester, ingressou no corpo docente do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) em 1993, tornando-se a primeira mulher negra a lecionar no instituto e uma das principais referências públicas quando se fala em representatividade na ciência brasileira. Sua trajetória é frequentemente citada como exemplo de excelência acadêmica aliada à abertura de caminhos para novas gerações de meninas negras nas áreas STEM.
29. Suzana Herculano-Houzel: neurociência e divulgação científica
Suzana Herculano-Houzel (1972) é uma neurocientista brasileira reconhecida internacionalmente por suas contribuições à neuroanatomia comparada. Seu trabalho demonstrou que o cérebro humano segue princípios de organização semelhantes aos de outros primatas, desafiando a ideia de excepcionalidade absoluta da espécie humana e reformulando interpretações sobre cognição e evolução. Além da pesquisa acadêmica, destacou-se como uma das principais divulgadoras científicas do país, aproximando conceitos complexos da neurociência do grande público com rigor e clareza.
30. Tatiana Coelho de Sampaio: regeneração após lesão medular
Tatiana Coelho de Sampaio (1966) é uma cientista brasileira que lidera pesquisas em biologia da matriz extracelular envolvendo a polilaminina/laminina como estratégia de regeneração e recuperação funcional de lesão medular. Um trabalho promissor no campo de terapias regenerativas que já se encontra em etapas de protocolos rigorosos e avançados, com testes bem-sucedidos em humanos. Sua trajetória se destaca por revelar como a pesquisa de fronteira pode contribuir para tratamentos de alto impacto social, como paraplegia e reabilitação.
31. Trotula de Ruggiero: a pioneira na ginecologia
Trotula de Ruggiero (século XI, Salerno, Itália) foi uma médica da célebre Escola Médica de Salerno, um dos primeiros centros de saber médico da Europa que admitia mulheres como alunas e professoras, num período em que a medicina formal excluía quase sempre mulheres. A ela são atribuídos tratados sobre doenças e cuidados da mulher antes e depois do parto e sobre cosmética feminina, reconhecidos como alguns dos primeiros textos sistemáticos de ginecologia e obstetrícia da tradição ocidental. Seu trabalho considerava a saúde da mulher de forma integrada — incluindo alimentação, higiene e tratamentos com plantas — e foi amplamente copiado e traduzido ao longo de séculos, influenciando práticas médicas na Europa medieval. Apesar de seu impacto duradouro, a autoria e a própria identidade de Trotula foram obscurecidas por séculos em razão de dinâmicas historiográficas que marginalizaram mulheres no cânone médico.
32. Tu Youyou: ciência que salvou milhões de vidas
Tu Youyou (1930) é uma cientista chinesa cuja pesquisa foi decisiva no combate à malária, uma das doenças mais letais da história. A partir do estudo sistemático da medicina tradicional chinesa, isolou a artemisinina, composto altamente eficaz contra o parasita da malária. Seu trabalho teve impacto direto na saúde pública global e já salvou milhões de vidas, sendo reconhecido com o Prêmio Nobel de Medicina em 2015.
33. Valerie Thomas: a pioneira do 3D
Valerie LaVerne Thomas nasceu em 1943, em Maryland, EUA. Cientista e inventora afro-americana, desde cedo demonstrou aptidão em matemática e física, áreas nas quais se formou com honras antes de iniciar sua carreira na NASA, onde foi uma das poucas mulheres e pessoas negras em funções técnicas. Enquanto trabalhava com processamento de sinais e imagens, contribuiu significativamente para o desenvolvimento dos sistemas de imagens dos satélites Landsat, que transformaram a observação da Terra a partir do espaço. Em 1980, ela recebeu patente pelo “transmissor de ilusões”, um dispositivo baseado em espelhos que cria a percepção de imagens tridimensionais, tecnologia que influenciou ideias posteriores em visualização e tecnologias 3D.
34. Vera Rubin: a astrônoma que mostrou a matéria escura
Vera Florence Cooper Rubin (1928–2016) foi uma astrônoma americana, cuja carreira científica pioneira transformou a cosmologia ao demonstrar que as galáxias espirais giram mais rápido nas regiões externas do que a massa visível permitiria, evidência que se tornou um dos pilares da existência da matéria escura, um componente dominante do universo invisível. Sua descoberta moldou profundamente o entendimento moderno da estrutura e evolução do cosmos, mas ela não recebeu o Prêmio Nobel, apesar de muitos especialistas considerarem sua contribuição digna da honraria. Seu legado é celebrado internacionalmente, inclusive pelo Observatório Vera C. Rubin no Chile, dedicado a mapear o universo com tecnologia avançada e aprofundar a pesquisa sobre matéria escura e outros fenômenos cósmicos.
A especialista: Kharyna Rodrigues é graduada em Física e pós-graduada em Neurociência, apaixonada pela Educação e pelo desafio de tornar a aprendizagem mais acessível e significativa. Movida pela resistência que muitos estudantes demonstram diante da disciplina, aprofundou-se no estudo de como o cérebro adolescente aprende e atualmente, além de lecionar Física na escola Aubrick, em São Paulo, atua na implementação de projetos educacionais fundamentados na neurociência, com o objetivo de tornar o ensino de Física mais orgânico, humano e transformador.








