Storytelling: como surgem os games?

Storytelling: como surgem os games?

14 de dezembro de 2021 0 Por Alan Henrique Pardo de Carvalho

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*Por Alan Carvalho, professor e coordenador do curso de Jogos Digitais da Faculdade Impacta

Você sabia que um dos primeiros processos da hora da criação de um jogo é formação de um storytelling? Narrativas não são apenas “elemento de cinema”, como muitos pensam. Principalmente nos dias de hoje em que jogos cada vez mais complexos podem ser criados pelo avanço da tecnologia.

Para quem não sabe, um storytelling, em tradução livre “contar histórias”, é a técnica de se criar um enredo e uma história, transmitindo a mensagem de forma clara. A arte do storytelling não é apenas criar a narrativa, mas saber como desenvolver e transmiti-la para atrair e impactar o público.

Ela precisa passar uma mensagem, ter ambientes, personagens e um conflito. Então, diversos outros elementos podem ser adicionados aos componentes básicos para enriquecer e torná-la mais complexa.

Essa é uma técnica aplicada não somente no cinema ou no videogame, mas profissionais de RH indicam até mesmo para entrevistas de emprego. O storytelling é o caminho para se contar algo e conseguir cativar ou impactar as pessoas.

No caso dos jogos, é necessário que se escolha o público-alvo, quais serão os personagens e como eles serão desenvolvidos. Feito isso, vem a parte da escrita do enredo. Apenas depois dessas etapas é que o design começa.

Por se tratar de uma experiência imersiva, eu diria que o processo de criação de um storytelling para videogame é ainda mais complexo do que o restante. A construção da história é o que vai direcionar todo o desenvolvimento de um jogo digital. Cada detalhe precisa ser levado em consideração. Sendo assim, é necessário imaginar cada etapa desse processo antes que seja criado.

A história do storytelling dos games

O cenário atual, diferentemente dos primórdios dos jogos, permite até ramificações. Isto é, que histórias sejam criadas a partir das escolhas dos jogadores e tornando toda a experiência ainda mais imersiva.

Como falamos anteriormente, a tecnologia tem nos permitido explorar cenários mais complexos, não lineares e personalizados. O que antes tinha gráficos simples e narrativas previsíveis, passa a oferecer um outro nível de interação.

Um dos pontos que está em constante evolução é o poder de mexer com os mais diversos sentimentos e sentidos do ser humano. Existem jogos de terror, de aventura, entre outros, que fazem o ato de jogar ser ainda mais real, como óculos de realidade aumentada e sensores de movimento.

Além de engajar ou causar algum sentimento no público, outro ponto importante a se atentar é que junto a definição do público-alvo, a história precisa gerar identificação e atrai-lo para o jogo.

Para a maioria dos games, o usuário precisa escolher um personagem para iniciar a sua jornada. Por esses e outros muitos aspectos, a identificação é tão importante. Qual é a faixa etária do público-alvo? Do que as pessoas que pertencem a esse grupo gostam? O que fazem? Como se parecem? São alguns dos pontos que podem ser levados em consideração na hora da criação dos personagens, por exemplo.

O jogador precisa criar laços com aquela figura ou, no mínimo, simpatizar para que ele continue firme e não abandone determinada narrativa. E como o objetivo dos jogos ainda é único e exclusivamente entreter, o jogador também precisa ver sentido nesta ação. É necessário algo que o impulsione, como um objetivo maior, uma recompensa que faça o esforço valer a pena.

Pesquisar muito e guardar boas referências é uma boa maneira de começar. Quase toda ideia nasce de uma boa pesquisa. Então, uma dica é começar a roteirizar e organizá-las. Até que, depois de muito pensar e usar a criatividade, o processo pode ser iniciado.

As regras são as mesmas para jogos e outros produtos de cultura e entretenimento. É claro que os gráficos e a aparência contam. Porém, nós, os desenvolvedores, sabemos que não há futuro sem um bom storytelling.

Para que ela se mantenha coerente e longe de furos, também sabemos que o final e todas as possíveis ramificações sejam esgotadas ou até definidas logo no início do roteiro, mesmo que a narrativa esteja aberta a outras possibilidades e aventuras no meio do caminho.

A técnica do storytelling é antiga, mas se mantém atual depois de tantos anos. Desde Aristóteles o ser humano já pensa em maneiras de se contar histórias casa vez mais atrativas. A de hoje é baseada na “Jornada do Herói”, de Joseph Campbell nos anos 90, sendo aprimorada e renovada a todo o tempo.

Ao contrário do que muitos podem pensar, vimos aqui que o desenvolvedor de jogos não é só aquele sabe de tecnologia e da utilização de softwares, mas pelo contrário. Um bom desenvolvedor precisa ser criativo, saber criar histórias, ter noções de design e, por último, saber como utilizar ferramentas. Ter conhecimentos a respeito de técnicas e maneiras de se criar narrativas é um dos pontos mais essenciais.