Games, violência e saúde dos jogadores

Games, violência e saúde dos jogadores

1 de fevereiro de 2022 0 Por Redação Em Notícia

A relação entre os games e a saúde é um tema de debate no grande espectro da mídia há décadas, mas infelizmente sob uma ótica negativa em muitas situações. Casos de tiroteios dentro de escolas nos EUA ou mesmo a tragédia da Escola Estadual Professor Raul Brasil, em Suzano, SP, nos quais houve o envolvimento de jovens e adolescentes, levam autoridades do governo e representantes de veículos de comunicação muitas vezes a apontar os dedos a jogos que supostamente promoveriam comportamentos antissociais e violentos. Os alvos de críticas de sempre certamente todos já ouviram em algum momento: GTA, Mortal Kombat, Call of Duty e vários outros. 

Como consequência disso, muitos pais ficam aflitos quanto aos eventuais efeitos negativos dos games, a ponto de haver proibições do contato de seus filhos com qualquer tipo de jogo digital. Existem também questões complicadas relacionadas ao conteúdo de determinados jogos e governos chegam a decretar o banimento em caráter temporário ou mesmo definitivo de certos títulos nas lojas de seu território, como aconteceu com Manhunt 2 ou Active Shooter. 

É claro que não se pode deixar de lado fatos como a inclusão do “distúrbio de games” (gaming disorder) na nova edição da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde (CID-11), que deverá entrar em vigor em 2022. Esse distúrbio é caracterizado por sintomas como a priorização dos jogos frente a outras atividades e áreas de interesse pessoal e social, perda de controle sobre o tempo das sessões dos jogos e impactos na vida social, educacional, profissional e familiar. 

A despeito de realmente haver abusos em conteúdos de determinados jogos, diversas pesquisas tem sido desenvolvidas ao longo dos anos para investigar mais a fundo essa ligação dos games com comportamentos agressivos e tem havido uma maior percepção de que não se pode estabelecer de forma definitiva uma relação de causa e efeito entre jogar jogos que tenham conteúdos violentos e passar a adotar comportamentos violentos, embora deva ficar clara a necessidade de um maior cuidado com os tipos de conteúdos aos quais crianças e adolescentes sejam expostos. 

Um exemplo disso é o relatório publicado pela Associação Americana de Psicologia, que analisou 100 estudos sobre o assunto e concluíram que jogos com armas e violência explícita podem estimular a agressividade em seus jogadores, porém não ao ponto de provocarem alterações neurológicas profundas, como a psicopatia. Esse relatório gerou polêmica por parte de cientistas que contestaram a metodologia utilizada na pesquisa e alegam que o efeito causado nos jogadores pela exposição à violência é de curto prazo. A associação reforçou a importância do papel de pais e responsáveis no controle da exposição das crianças e adolescentes aos jogos violentos. 

Na Inglaterra, o Oxford Internet Institute analisou como o comportamento de pouco mais de 2000 adolescentes com 14 ou 15 anos de idade, além de contar com a participação de pais e cuidadores. A conclusão da pesquisa foi que não há como associar a exposição aos jogos violentos com a adoção de comportamentos violentos. 

Por outro lado, os games podem ser utilizados como parte de tratamentos nas várias áreas da saúde. A chamada “Terapia de Exposição à Realidade Virtual”, que também é conhecida como gameterapia, é uma prática reconhecida pelo Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional (Coffito) desde 2015. Num estudo conduzido por pesquisadoras da Universidade Federal da Bahia (UFBA), pacientes que apresentavam sintomas de incontinência urinária passaram a ter melhoras após passarem a jogar os chamados “exergames”, jogos que exploram movimentos do corpo de forma similar a exercícios físicos. 

O jogo MentalPlus, desenvolvido pelo estúdio brasileiro Izotonic Studios em parceria com uma pesquisadora brasileira da Universidade de São Paulo (USP), avalia funções cognitivas em cerca de 25 minutos, facilitando a identificação de alterações de memória, atenção, linguagem e funções executivas. Os desenvolvedores do jogo têm como objetivo que ele seja validado como ferramenta de diagnóstico e, numa segunda etapa, como ferramenta de reabilitação dessas funções. 

Jogos que demandam alta performance técnica por parte de seus jogadores, como jogos de luta e alguns MOBAs (Street Fighter e League of Legends, por exemplo) podem melhorar tanto os reflexos das pessoas como também a capacidade de fazer pensamentos rápidos, o que pode ser útil para várias coisas em geral, melhorando a qualidade de vida (quando consumidos na medida certa, é claro). 

Por fim, ainda há jogos como Minecraft e Stardew Valley, que estimulam a criatividade dos seus jogadores, além de serem excelentes para qualquer um que simplesmente queira relaxar e ocupar a cabeça com algo um pouco diferente. Isso é algo que faz com que tantas pessoas busquem refúgio nos games, principalmente aqueles que sofrem de ansiedade ou quadros depressivos. Quando acompanhados de um psicólogo, os jogos podem ser verdadeiramente terapêuticos também. 

Com isso, podemos pensar em olhar os games com uma maior atenção e carinho, dando uma chance para essa forma de entretenimento que também pode ser usada para finalidades mais sérias e que, com moderação, podem ser surpreendentes e nos trazer vários benefícios.