Filmes e Games: Uma relação com início conturbado, mas com um futuro promissor

Filmes e Games: Uma relação com início conturbado, mas com um futuro promissor

9 de março de 2022 0 Por Alan Henrique Pardo de Carvalho

*por Alan Carvalho, coordenador do curso de jogos digitais da Faculdade Impacta  

É possível que você já tenha visto um filme baseado em um jogo ou tenha jogado um jogo que é baseado em um filme. Há décadas existe essa conexão e há casos em que um está diretamente ligado ao outro, ainda que não carregue o mesmo nome. Essa relação é bastante complexa e de altos e baixos, sendo possível dizer que algumas produções deram muito certo e outras deram muito errado.

O primeiro jogo licenciado baseado em um filme foi Superman, de 1979, para o Atari 2600. O jogo foi desenvolvido por John Dunn, que utilizou o código do protótipo do jogo Adventure, criado pelo lendário programador Warren Robinett e foi considerado inovador para a época, inclusive por apresentar a opção de pausa, o que não era nada comum nos jogos. 

Como se pode imaginar, a relação entre Hollywood e os games não é tão fácil, muito porque a licença que é necessária para desenvolver um jogo baseado em filme costuma ser cara, mas há questões que envolvem os cronogramas de produção dos filmes, que acabam influenciando na produção dos jogos e há mais de um caso em que a decepção foi a tônica, principalmente em função da grande expectativa criada em torno do jogo que seria baseado no filme.

Um exemplo emblemático de que adaptações de filmes para jogos nem sempre dão certo é a que resultou no jogo E.T. the Extra-Terrestrial (1982), jogo para o Atari 2600 baseado no famoso filme de Steven Spielberg. As negociações que permitiriam o desenvolvimento do jogo terminaram de forma que o programador Howard Scott Warshaw, que já havia sido responsável por ótimos jogos como Yars’ Revenge, teve apenas cerca de seis semanas para desenvolver o jogo, considerado um dos piores já lançados com diversos problemas relativos a gráficos e jogabilidade.

Antes do lançamento do jogo, a máquina de marketing da Atari funcionou muito bem e as expectativas eram altas para essa produção. Era esperado que o jogo fosse um sucesso de vendas no Natal de 1982, tendo sido vendidos 1,5 milhão de cartuchos, o que pode ser considerado um ótimo resultado. Porém, entre 2,5 e 3,5 milhões de cartuchos não foram vendidos e houve quase 670 mil cartuchos devolvidos por consumidores insatisfeitos. Inclusive parte desses cartuchos foram enterrados em um terreno no Novo México, sendo descobertos décadas depois.

Num contexto mais amplo, E.T. the Extra-Terrestrial é tido como um dos jogos que contribuiu para o crash dos videogames de 1983, período de enorme retração na indústria de jogos digitais, especialmente nos EUA, com muitas empresas falindo ou deixando esse mercado. A própria Atari foi afetada significativamente nessa crise e nunca voltou ao patamar anteriormente ocupado na indústria.

No sentido inverso, filmes baseados em jogos também têm os seus exemplos de insucesso, como Super Mario Bros. (1993), o primeiro longa-metragem live-action baseado em um jogo. A arrecadação com a bilheteria do filme, cerca de US$ 39 milhões em todo o mundo, não foi suficiente para cobrir os custos de produção e além disso o filme foi amplamente mal avaliado, apesar de ter méritos nos efeitos especiais, na atuação do elenco e na direção artística.

Mas é necessário destacar adaptações que trouxeram bons resultados, como Raiders Of The Lost Ark, de 1982, jogo para Atari 2600 baseado no primeiro filme da franquia, que havia sido lançado no ano anterior. Foi um jogo muito bem avaliado na época e considerado de grande complexidade, sendo necessário usar os dois controles do console para jogar. Vale destacar que esse jogo foi desenvolvido pelo mesmo programador de E.T. the Extra-Terrestrial, mas com resultado completamente diferente. É uma mostra de que quem tem pressa come cru.

E em relação a filmes baseados em jogos podemos citar, entre vários exemplos, Pokémon Detetive Pikachu, filme de 2019 que é o segundo longa-metragem live-action baseado em um jogo da Nintendo e Sonic: O Filme, de 2020, que traz o carismático e energético porco-espinho. Ambos os filmes são baseados em famosos jogos e suas adaptações, quando chegaram ao cinema, agradaram muitos consumidores desse tipo de mídia.

Aprofundando a conexão

Algo que num primeiro momento poderia ser considerado como pontual ou esporádico, as possibilidades de conexão entre os jogos digitais e o cinema passaram a ser vistas com um interesse crescente pela indústria do cinema a partir da evolução da indústria do videogame, principalmente a partir da década de 2010.

Segundo Diana Iljine, diretora do Festival de Cinema de Munique, os jogos têm visual, narrativa e atmosfera muito semelhantes às dos filmes, com isso sendo possível esperar que esses dois se unam em dado momento para que ambas as produções façam sucesso. Foi isso que passou a acontecer quando os jogos de videogame passaram a ser vistos como um patrimônio cultural e inclusive em 2013 os jogos começaram a integrar a programação do prestigioso festival.

Profissionais da indústria cinematográfica passaram a ser também na produção de jogos, como os roteiristas. “Não conheço um compositor de cinema que também não componha para jogos de computador e videogame”, admite Phillip Schall, produtor de cinema. Para ele, a produção de jogos será uma opção para os profissionais de cinema, já que cada vez mais o orçamento para a produção de cinema e televisão está menor, enquanto a indústria de jogos se torna multibilionária. 

O que se pode ver hoje são as duas indústrias com uma maior interação na produção, explorando diferentes possibilidades de atingir o público com sucesso em cada uma dessas mídias. É possível ver astros do cinema dublando jogos e até mesmo permitindo o uso de sua aparência para a criação de seus personagens, além de jogos que até mudaram o seu foco depois que os filmes fizeram sucesso de outra forma.

As expectativas para os próximos filmes são altas e em 2022 teremos diversas adaptações de jogos nas telas, como Uncharted – Fora do Mapa, que é baseado na famosa franquia de jogos do PlayStation e que conta com diversos atores famosos, como Tom Holland, Mark Wahlberg e Antonio Banderas, e Super Mario Bros. (agora uma animação), que contará com Chris Pratt, Anya Taylor-Joy, Charlie Day, Jack Black, Keegan-Michael Key e Seth Rogen, além de participação especial do inesquecível Charles Martinet. E aí, como está sua expectativa para esses filmes?