Democratização dos games: como levar os jogos a mais pessoas?

Democratização dos games: como levar os jogos a mais pessoas?

12 de abril de 2022 0 Por Alan Henrique Pardo de Carvalho

*por Alan Carvalho, coordenador do curso de Jogos Digitais da Faculdade Impacta   

Para começarmos a falar sobre esse assunto, quero inicialmente esclarecer que, no contexto deste artigo, a “democratização” significa que mais pessoas tenham acesso a jogos digitais.

É certo que antes de falarmos em acesso aos jogos digitais precisamos deixar claro que ainda há muito o que se fazer quanto à inclusão digital, principalmente quando nos referimos a computadores e consoles. Pela pesquisa TIC Domicílios mais recente, apenas 21% dos domicílios possuem computador de mesa (desktop), 32% possuem um notebook, 14% um tablet e 15% um console.

Quando nos referimos aos celulares, temos uma melhora na situação, com cerca de 109 milhões de usuários de celulares no Brasil segundo a consultoria Newzoo. Já o acesso à Internet, ainda de acordo com a pesquisa TIC Domicílios, 83% dos lares brasileiros possuem algum tipo de acesso à Internet, o que é uma informação muito interessante. Mesmo assim, não se pode dizer que “todo mundo” pode ter acesso aos jogos digitais.

É certo que também não se pode deixar de lado o custo desses equipamentos, principalmente de consoles, computadores ou smartphones topo de linha que possuam uma certa configuração capaz de aceitar determinados jogos. O preço desses equipamentos pode ser proibitivo para muitas pessoas.

Ao mesmo tempo, smartphones ou computadores com configurações mais modestas permitem acesso a muitos jogos e um exemplo bem recente disso é o Free Fire, jogo battle royale publicado pela Garena em 2017 para Android e iOS, que tem sido um dos mais populares no mundo e mostrado um caminho que pode ser bem interessante para desenvolvedores e publishers.

Free Fire

Quando se fala em levar os jogos para muitas pessoas, sem dúvida não se pode deixar de lado o Free Fire, que já conseguiu mudar a vida de muitas pessoas e sem precisar de um smartphone com configuração muito avançada para que o jogador pudesse se divertir com seus amigos.

O jogo foi lançado em 2017 e teve uma adesão muito crescente desde então, ultrapassando US$ 1 bilhão em receitas em 2019 e um bilhão de downloads em 2021. Com essa popularização, os jogadores passaram a ter a oportunidade de jogar competitivamente e ganhar dinheiro com isso. Com menos de um ano após seu lançamento já havia torneios do jogo e em 2019 foi realizado o primeiro campeonato mundial de Free Fire, em Bangkok, com premiação total de US$ 100 mil e o brasileiro Kronos como MVP (Most Valuable Player), tendo recebido US$ 2 mil. Desde então o cenário do Free Fire só cresceu e outros campeonatos mundiais foram feitos, além de Copa América e LBFF (Liga Brasileira de Free Fire).

É possível citar diversos jogadores que saíram de zonas emergentes do Brasil e hoje conseguem dar uma vida melhor a toda sua família. O caso mais famoso é de Bruno Goes, mais conhecido como Nobru, que quando criança tinha o sonho de jogar futebol e morava na periferia de São Paulo. Começou a jogar Free Fire no celular do pai, não parou mais e em 2019 foi eleito o melhor jogador de Free Fire do mundo, representando a equipe do Corinthians, com quem conquistou o torneio. Nobru conta com uma legião de fãs e atualmente é CEO de uma das maiores organizações de e-sports, o Fluxo

A Garena mostrou um possível caminho para que o game chegue a muitas pessoas, mas, além disso, mostrou também que é possível mudar a vida de uma pessoa através de um jogo de celular.

A indústria de games busca diversas formas de levar jogos tanto para celulares quanto para computadores, nesse caso, sem a necessidade que sejam de alto desempenho e um exemplo interessante é o Xbox Cloud Gaming.

Xbox Cloud Gaming

O Xbox Cloud Gaming é um serviço que permite que o usuário possa jogar mais de 100 títulos sem a necessidade de baixá-los. Isso fez com que os amantes de gamers não precisassem mais de super máquinas, os chamados PC Gamers, já que os jogos estariam em nuvem. A única recomendação é de uma internet entre 10 Mbps em smartphones e 20 Mbps em consoles, PCs ou tablets. Para conexões sem fio é recomendada uma rede Wi-Fi de 5 GHz.

O preço mensal é de 45 reais, o que pode ser considerado um pouco “salgado” ainda para a nossa realidade, mas que tem tudo para ganhar força devido aos grandes títulos disponíveis e as melhorias que vem ocorrendo gradativamente no serviço. Além de poder jogar no Xbox e no PC com Windows, o usuário também consegue jogar pelos celulares ou tablets Android ou Apple, o que pode atrair uma grande variedade de jogadores.

Assim como diversas áreas da tecnologia estão usando recursos de computação em nuvem (cloud computing) como uma forma de não precisar baixar aplicativos ou documentos para os computadores ou dispositivos, esses recursos também podem e deverão ser usados no mundo dos jogos digitais, conforme houver mais conexões à Internet de boa qualidade.

Esses e outros recursos poderão contribuir para uma maior democratização dos jogos digitais, desde que as pessoas tenham acesso às tecnologias e, como vimos, isso passa por diversas iniciativas, inclusive no âmbito governamental nas esferas municipais, estaduais e federal, já que uma coisa está ligada a outra. A indústria dos jogos digitais continuará empreendendo esforços para possibilitar que, quando esses recursos estejam disponíveis a mais pessoas, elas possam divertir-se com os mais variados jogos que vêm sendo lançados todos os dias em plataformas diversas, para todos os públicos.