A produção nacional de games: um cenário promissor para profissionais e empresas

A produção nacional de games: um cenário promissor para profissionais e empresas

15 de março de 2022 0 Por Alan Henrique Pardo de Carvalho

*por Alan Carvalho, coordenador do curso de Jogos Digitais da Faculdade Impacta   

Quando se fala em jogos digitais, muitos já se remetem ao fato da alta procura desde o início da pandemia. De fato, essa procura aumentou muito nos últimos anos e a tendência é aumentar ainda mais. Mas você conhece algum jogo que foi desenvolvido no Brasil ou mesmo já sonhou em se tornar um desenvolvedor de games no cenário nacional?

Atualmente, o mercado brasileiro de games vem em ascensão. Claro que as pessoas queriam que fosse melhor, como é no Exterior. Mesmo assim, o crescimento vem acontecendo e hoje existem várias opções no Brasil para quem deseja atuar profissionalmente com desenvolvimento de jogos digitais e há diversos profissionais que se dedicam exclusivamente a essa atividade, com formações e experiências diversas assim como é o cenário dessa indústria brasileira de jogos digitais.

Pode-se pensar que o desenvolvimento de jogos digitais começou no Brasil há pouco tempo, mas as primeiras produções nacionais datam dos anos 1980 e o primeiro jogo amplamente disponível para o público é Aeroporto 83, desenvolvido por Renato Degiovani, considerado o primeiro game designer brasileiro. O jogo era compatível com microcomputadores da linha Sinclair ZX81 e foi publicado na primeira revista de informática no Brasil, a Micro Sistemas. O objetivo do jogo era pousar um avião e para isso era necessário destruir os obstáculos da pista de pouso com bombas. O sucesso do jogo foi tamanho que provocou o esgotamento da revista nas bancas de jornais logo em seguida ao seu lançamento, em julho de 1983.

Logo no número seguinte da revista, Degiovani teve lançado seu jogo Aventuras na Selva, um adventure de texto no qual o jogador era levado à floresta amazônica após um acidente de avião e tinha como objetivo sobreviver até achar um local onde pudesse ser socorrido, tendo de tomar muito cuidado com os perigos da região. Esse jogo foi relançado em 1985 com o nome de Amazônia e foi desenvolvido de forma que os jogadores poderiam criar suas próprias aventuras.

Diversos outros exemplos muito interessantes de jogos desenvolvidos por empresas e profissionais brasileiros podem ser citados, como por exemplo Férias Frustradas do Pica-Pau, desenvolvido e publicado pela Tectoy em 1995 para os consoles Mega Drive e Master System.  É importante citar que a Tectoy conseguiu a licença da Universal para utilizar personagens do Pica-Pau no jogo.

Mas não foram apenas a ficção e a fantasia presentes nessa trajetória dos jogos desenvolvidos no Brasil. O famoso Incidente de Varginha, como ficou conhecido, foi uma alegada sequência de aparições de Objetos Voadores Não Identificados (OVNIs) na citada cidade do Sul de Minas Gerais em janeiro de 1996, que teria tido inclusive a participação de militares brasileiros com a captura de um extraterrestre. Esse episódio chamou a atenção de uma produtora brasileira chamada Perceptum que, em setembro de 1998, lançou o jogo Incidente em Varginha, considerado a primeira grande produção de jogo digital no Brasil. Chegaram a ser vendidas mais de 20 mil cópias do jogo no Exterior e cerca de duas mil no Brasil, isso fora as vendas de cópias pirateadas.

Outro jogo brasileiro que não pode deixar de ser citado é Outlive, lançado em 2000 no Brasil e que passou a chamar a atenção da mídia nacional e internacional, incluindo importantes publicações do setor. Era um RTS (real time strategy ou jogo de estratégia em tempo real), publicado no Exterior pela gigante Take-Two Interactive, que tinha no seu portfólio lançamentos como Duke Nukem e GTA. Porém, Outlive acabou não tendo como competir com o poder de fogo da Blizzard, que havia lançado StarCraft no início de 1998. Mesmo assim, foram vendidas 10 mil cópias no Brasil e 40 mil cópias do jogo no Exterior.

Além desses, podemos destacar o jogo do Show do Milhão, desenvolvido pela Tectoy e lançado em 2001 e o jogo do reality show Big Brother Brasil, desenvolvido pelo mesmo estúdio de Outlive e lançado em 2002. Muitos outros jogos brasileiros vêm sendo lançados desde então, desenvolvidos por empresas ou profissionais independentes. Atualmente, a distribuição de jogos está muito mais facilitada e é bem possível que você já tenha jogado algum jogo sem saber que ele foi desenvolvido no Brasil.

Apesar dos olhares positivos sobre o Brasil e do reconhecimento de que existe um grande potencial para o crescimento da indústria brasileira de jogos digitais, com diversos talentos que buscam oportunidades, ainda há uma negação em relação ao público e uma falta de incentivo maior para a área. Mesmo assim, as perspectivas são interessantes.

Incentivo e perspectivas da área

Apesar de o avanço ser evidente, é um setor que ainda possui diversos problemas, com muitas empresas brasileiras ainda novas e pequenas. Segundo dados do 2º Censo da Indústria Brasileira de Jogos Digitais, 26,4% dessas empresas são informais.

Sabe-se que o ambiente para desenvolvimento de novos negócios no Brasil não é dos melhores, com várias dificuldades e a falta de um maior incentivo dificulta muito o desenvolvimento desse setor, incluindo os meios para qualificação e manutenção de profissionais. Como ocorre em diversos setores, também neste existem empresas que não sobrevivem por muito tempo após sua fundação.

Ao mesmo tempo, há iniciativas positivas como o recente investimento realizado pela Magazine Luiza, empresa que entrou no mercado de games com o objetivo de aumentar seus serviços e os produtos do aplicativo. A seleção foi feita através de um edital, que atualmente está na terceira fase das cinco, e que irá destinar R$ 10 mil de incentivo para projetos de estúdios brasileiros. Embora tenha havido críticas em relação a determinados aspectos do edital, não se pode negar a importância de uma empresa desse porte voltando sua atenção para essa indústria.

Além da Magalu, a comissão de Cultura da Câmara dos Deputados também demonstrou preocupação com a falta de incentivo e realizaram audiência pública para discutir formas de fomentar a produção nacional desse setor.

No meio desse ambiente, empresas brasileiras têm obtido destaque no setor, entre elas duas que são referência e estão em São Paulo: a Wildlife Studios, que foi avaliada em US$ 1,3 bilhão de dólares em 2019, conta com mais de dois milhões de downloads de seus jogos em mais de 110 países, e a Tapps Games que também fica na capital paulista e já produziu mais de 400 jogos, baixados mais de 700 milhões de vezes. Além dessas produtoras, podemos citar a Aquiris, localizada em Porto Alegre, responsável por jogos como Horizon Chase Turbo e Looney Tunes: World of Mayhem, já tendo conquistado diversos prêmios no mundo gamer e a Diorama, divisão do estúdio Kokku localizado em Recife, que produziu conteúdo 3D para o aclamado jogo Horizon Zero Dawn.

Se você quer entrar nesse mercado é necessário entender que é um setor em que se trabalha muito e que você precisará de muito estudo e desenvolvimento, buscando expandir os seus conhecimentos por meio de cursos e do autoestudo, uma realidade dessa área. Participar de eventos e se atualizar sobre as novidades e tendências da indústria também são iniciativas importantes. Os investimentos nesse setor têm aumentado, com possibilidades de injeção de capital e busca de talentos, há grandes perspectivas e sem dúvida muito espaço a ser explorado.