A força e relevância dos jogos indie para o Brasil

A força e relevância dos jogos indie para o Brasil

21 de dezembro de 2021 0 Por Alan Henrique Pardo de Carvalho

*por Alan Carvalho, coordenador e professor do curso de Jogos Digitais da Faculdade Impacta

O Brasil é um dos países do mundo que mais consome games: atualmente, são aproximadamente 95 milhões de pessoas que se consideram “gamers” de alguma forma. No entanto, o quanto é produzido aqui fica bem atrás do consumo. O Brasil está “apenas” em 12º lugar no mundo, em relação ao lucro com games criados por estúdios nacionais.

A maior parte dos publishers e desenvolvedores que aparecem no mercado e na mídia costumam vir de lugares como os EUA, Japão e países da Europa, todos AAA. Para alguém que está entrando (ou considerando entrar) no curso de Jogos Digitais, isso às vezes pode ser algo um pouco assustador, criando preocupações quanto às chances de um brasileiro conseguir uma vaga nesse mercado tão gigantesco, mas aparentemente um tanto elitizado.

Porém, algo que pode ser uma surpresa para muitas pessoas é que o Brasil tem 375 empresas de games nacionais. Pois é, você não leu errado, são 375 mesmo, segundo o mais recente Censo da Indústria Brasileira de Jogos Digitais, realizado em 2018. Desse total, 71% são consideradas microempresas, ou seja, possuem um faturamento anual de até R$ 81 mil, de acordo com o mesmo Censo. Os jogos criados por esses pequenos grupos de desenvolvedores (ou em alguns casos, por uma única pessoa) ficam conhecidos como parte da cena indie. E se considerarmos que esse levantamento tem três anos, pode-se pensar que o número de empresas já é maior.

O termo “indie” vem justamente da palavra “independente”, e muitos desses são jogos que não apenas surgem de uma equipe muito pequena, mas que também não pertence a nenhuma empresa que lança jogos AAA ou possui quaisquer grandes patrocinadores. São ideias que começam talvez em uma conversa casual entre um grupo de amigos, em uma game jam ou alguma epifania momentânea de uma única pessoa, que acabam se transformando em projetos movidos por paixão e algum investimento. É a prova de que você não precisa começar a sua carreira em um grande estúdio logo de cara. Na verdade, iniciar como um indie pode ser até melhor, se você quer ter essa experiência de liberdade, onde você é o seu próprio chefe (ao lado de seus amigos e colegas no projeto, claro). Pode tanto ser ótimo como uma experiência antes de buscar uma colocação em um estúdio como acabar sendo um caminho para o empreendimento próprio.

Agora, pode ser que alguém esteja pensando. “Mas se isso é só um jogo pequeno, como que eu vou chamar a atenção das pessoas?”. Bem, só porque a equipe é pequena e o jogo não custou milhões de dólares para ser feito, isso não significa que o projeto está fadado ao esquecimento. Veja o caso do Minecraft, por exemplo, que começou da ideia de uma única pessoa (o sueco Markus “Notch” Persson), foi produzido em apenas seis dias e foi disponibilizado para download em fóruns no ano de 2009. Pois bem, 12 anos depois Minecraft foi comprado pela Microsoft e é possivelmente o game mais popular da história, tendo atingido 140 milhões de jogadores ativos todos os meses em 2021, com 1 bilhão de itens de conteúdo disponíveis para vender no Minecraft Marketplace.

Aqui no Brasil também já temos alguns casos interessantes de grupos que tem tido grande destaque, como o Studio Pixel Punk, que lançou em 30 de setembro desse ano o aguardado metroidvania Unsighted, que recebeu excelentes notas pela crítica especializada, e a PixelHive, que desenvolveu Kaze and The Wild Masks em parceria com o estúdio holandês Soedesco.

O próprio Celeste, que venceu o prêmio de “Melhor Jogo Indie” e “Jogo Mais Impactante”, além de indicado para “Jogo do Ano” no Game Awards de 2019, teve sua linda arte pixelada produzida pelo estúdio brasileiro MiniBoss.

Existem muitas possibilidades para nós brasileiros, tanto aqui quanto lá fora, e a iniciativa pode muito bem vir de você mesmo. Às vezes, tudo que basta pra começar é uma boa conversa e um grupo de amigos apaixonado por games tanto quanto você. O resto vai se descobrindo ao longo do caminho, como qualquer outra coisa é.